Ontem marido atrasou no trabalho e eu, cheia de pendências, coloquei Lucas e Luiza na minha cama pra dormir ao meu lado enquanto eu trabalhava no laptop. Fiquei na ponta da cama com computador no colo e materiais da mesinha de cabeceira, Luiza no meio – precisava ficar do meu lado porque ainda mama, principalmente pra dormir – e Lucas na outra ponta, porque foi o lugar que sobrou. Ela pegou no sono logo e ele ficou vendo desenho um pouco mais. Quando decidi desligar a TV, ele caiu no choro. Achei que era só por causa da televisão ou o sono, mas ele começou a querer muito abraço e chorava ainda mais.

Perguntei o que houve e ele disse, entre muitas lágrimas:

– Ela invade todos os espaços, mamãe. Eu só queria ficar do seu lado!

Ai, meu coração.

Abracei ele bem forte e, em vez de tentar convencê-lo de que é assim mesmo, eu disse que sim, ela invade mesmo. “Lucas, você tem razão e isso dói”. Validei o que ele estava sentindo, disse que era mesmo muito chato tudo isso, que às vezes eu não percebo e que ficava feliz dele poder chorar e me dizer o que sentia. Disse que ele podia sempre chorar quando precisasse, que eu sempre tentaria ficar do lado dele, mesmo que interrompida por uma menininha de vez em quando.

– Pronto, filho. Vem aqui e me dá um abraço bem forte que vai ficar tudo bem, tá?

Ele respirou aliviado. Nos abraçamos mais.

Você acha que acabou? Pois não, agora que vem a parte incrível desse meu menino tão sensível:

– Mamãe e a sua irmã? Ela invadia a sua vida?

Ai meu coração²

– Sim, filho, invadia. Muito até. Fiquei com raiva um tempo, com ciúmes por muito mais tempo. A gente brigava muito, mas também éramos bem amigas.

(e daí contei um pouco de como ela era, do que eu sentia a respeito dessa relação, tentei falar como eu era como irmã mais velha – tudo de maneira simples, mas tentando que ele soubesse que EU SEI o que ele sente. Eu sei o que é ser irmão mais velho. Eu sei, filho.)

– E depois que ela morreu, mamãe?
– Ah, meu amor, aí eu fiquei sem ter irmãos.

(ele já sabe da morte dela há tempos, isso não é tabu na minha casa)

– E você ficou triste, mamãe?
– Fiquei filho, acho que foi a coisa mais triste que eu já senti.

Ele me puxou pra mais pertinho:

– Pronto, mamãe. Vem aqui e me dá um abraço bem forte que vai ficar tudo bem, tá?

Eu respirei aliviada. Nos abraçamos mais.

4 respostas em “Sobre invasões e vazios

  1. Chorei aqui…
    Tenho 3 filhos bem pequenos (menina de 4a11m, menino de 3a4m e menina de 1a9m) e sofro por não conseguir dar toda a atenção que gostaria pra eles, principalmente pros mais velhos.
    Mas sabe que nunca tinha parado pra analisar o lado deles 🙁 Se eu sofro por não conseguir, eles certamente sofrem muito mais por não receberem.
    Sou a caçula temporona da minha família (somos 3 irmãs), sempre fui a invasora, não senti isso na pele.
    Obrigada pelo texto, vai me ajudar a resignificar o olhar e atitude frente aos choros e pedidos de atenção…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *