Quando Lucas fez um ano, eu fiz questão de fazer um relato de amamentação. Achei importante registrar o tanto que eu tinha lutado pra chegar naquele marco – foi um ano difícil.

E hoje faz um ano que amamento Luiza. O aniversário dela foi ontem, mas eu só pude amamentá-la pela primeira vez no dia seguinte ao seu nascimento.

Fiquei pensando se foi um ano tão complicado quanto o primeiro do Lucas.

Não, não foi. Engraçado isso, supostamente deveria ter sido, afinal enfrentei uma alergia muito mais severa e múltipla que a do Lucas: Luiza não pode ter contato com leite, ovo ou soja. E recentemente voltei a desconfiar do chocolate. Mas o fato de já ter amamentado uma criança por dois anos e nove meses, ter ordenhado até a alma, ter dado várias voltas em diversos sintomas de confusão de bicos que Lucas teve (que é quando o bebê confunde a sucção correta, no caso dele também usar chupeta e mamadeira), ter amamentado grávida e ter tido um desmame respeitoso, tudo isso me deu serenidade e segurança.

a primeira vez

Então quando cheguei na UTI para amamentar Luiza pela primeira vez, eu não tive a menor dúvida: essa menina vai mamar. Botei a peita pra fora e aquela bebezica minúscula de menos de 2,5kg mamou. Sem jeito, sem força, sem foco – totalmente diferente do irmão – mas mamou. E desse momento em diante, nos 5 dias que ela ficou na UTI, eu fiz questão de dar peito em todas as mamadas (que lá eram fixadas a cada três horas: regras babacas de uma UTI quadrada). Durante o dia, após as mamadas, eu deixava ela no colo do pai e corria pra salinha de lactação, onde ordenhava o que me tinha sobrado, pra estimular. E sobrava muito, eu cheguei a ordenhar 120ml de colostro numa das vezes. As outras mães sofrendo pra extrair alguns pingos e eu lá tipo vaca-mãe, jorrando aquele leite inicial. Eu sentia orgulho, mas também sentia tristeza: “eu podia estar engordando essa menina em casa, não sei por quê estamos aqui”.

Daí chegou o dia que eu tive alta e ela não. Cara. Sair do hospital sem o filho é de uma crueldade que eu não desejo pra ninguém. A única coisa que me deu ânimo foi ver o Lucas em casa depois de tantos dias longe. Saí da UTI às onze da noite, deixei leites ordenhados para darem pra ela durante a madrugada e combinei meu retorno às sete da manhã do dia seguinte. Na noite em casa, eu acordei e ordenhei, pra manter a produção. E na hora que acordei pra extrair leite, ainda liguei pro hospital pra saber dela: se tinha mamado tudo, se tinha chorado, meu coração estava em pedaços.

No dia seguinte, às sete, eu estava de volta ao hospital. Meu pequeno pacotinho estava engordando bem, dei peito e fui descansar um pouco na sala de pais. Até que a enfermeira veio correndo atrás de mim: “ela vai ter alta hoje!”. CARALHO, que emoção. Peguei a mochilinha dela e fiquei toda besta de vesti-la pela primeira vez (quem fazia isso antes eram as enfermeiras, eu só podia trocar a fraldinha de vez em quando). Voltei, vesti, sorri, chorei. A médica veio dar mil recomendações e, quando chegou na parte da amamentação, eu a interrompi e falei: “deixa, deixa comigo. Ela vai engordar.”

a única foto com a plasticuda

Na saída, joguei fora a chupetinha que me deram lá na UTI, saí do hospital com o pé direito e sem olhar pra trás, prometendo para mim mesma nunca mais voltar.

No primeiro mês de Luiza, ela engordou 1,3kg. Eu nunca senti dor, eu nunca dei chupeta, nem mamadeira, nem nada. Eu nunca duvidei. Só dei peito. Dia e noite, meu único objetivo na vida era estar disponível pra ela. Não marquei hora, não via duração das mamadas, não pensava direito se estava no peito direito, peito esquerdo. Só ficava olhando pra ela e prestando atenção aos sinais. Deu certo.

Só que o primeiro e tranquilo mês passou e uma velha história começou a dar as caras: a alergia. Começou com uma irritabilidade, algumas cólicas. Passou pra um sono complicado e picotado. Teve refluxo. Teve uma pele muito estranha. Teve um nariz trancado e um resfriado que nunca passava. Teve diarreia, cocô verde, cocô com muco e, finalmente, sangue. No dia que veio sangue, eu tive a certeza: é alérgica. Nesse dia, eu chorei. No dia seguinte, levantei a cabeça e parti pra luta.

Foi uma luta dura, hein, não foi fácil. Luiza demorou muito para ganhar a luta e eu tive muitas dúvidas se era o ideal seguir amamentando. Busquei grupos de apoio, troquei toda a cozinha da minha casa, travei uma verdadeira guerra contra os traços e contaminações, fiz diário alimentar, consultamos alguns especialistas, aprendi a cozinhar, fiz toda a minha família parar de comer os alergenos.

Com a alergia tão atacada, veio junto um refluxo e um período de pouca engorda. Nessa época, chegamos a tratar com remédios e eu complementei um pouco as mamadas com leite no copinho, oferecendo meu próprio leite ordenhado pra ela. Durou uns 15 dias isso e ela voltou a engordar bem, então relaxei. Eu realmente confiava na força das peitas.

Um belo dia no meio disso tudo, minha licença acabou e eu voltei a trabalhar. No mesmo dia em que voltei, por mil motivos, pedi demissão. A alergia foi um desses motivos. Luiza, aos seis meses, ainda era muito instável e parecia reagir a qualquer coisinha. Sangrava constantemente e parecia que eu nunca acertaria a dieta – eu precisava estar com ela. Trabalhei por dois meses até finalmente parar e, diferente do que foi com Lucas, quase não ordenhei. Eu voltava em casa na hora do almoço para amamentar e Luiza quase não aceitava o leite que eu tinha estocado no copo, então meio que desisti. Não quis introduzir mamadeira e ela mamava muito quando me via, acho que acostumou ao tempo sem o peito. Ficamos assim, então.

Também nesse meio tempo, fizemos a introdução alimentar, que foi um perfeito desastre, hahahaha. Luiza não estava preparada para comer, mas isso eu só fui ver algum tempo depois.

Quando passei a estar em casa full time com ela, nos acertamos de novo e nos mudamos de país. Aqui no Rio, eu encontrei um médico excelente e ele foi a peça que faltava para terminarmos de entender a alergia, acertarmos finalmente a dieta e Luiza parar de reagir. Demorou quase 7 meses para Luiza estabilizar e parar de sangrar no cocô (por isso quando eu vejo mãe querendo desmamar porque tentou a dieta por uma semana e não conseguiu, eu penso: “calma, amiga, calma”). Com a ajuda desse médico, vimos que Luiza estava comendo mal também por conta das constantes reações alérgicas e, uma vez que ela estabilizou, voltou a comer minimamente. Ela é de comer bem pouquinho mesmo, então eu nem tenho grandes expectativas.

E assim, sem quase ver o tempo passar, chegamos a um ano de amamentação. Luiza está estável (depois de um mês de reações fortes devido a uma vacina que tinha proteína do ovo), dieta controlada e estamos aguardando a cura. Amamentando e sendo feliz, porque certamente é dos nossos momentos preferidos.

peito nela

Não sei quanto tempo irei amamentá-la, mas é fato que não tenho a menor pressa. A MENOR. É absolutamente prazeroso pra nós duas, é fundamental para nós, nesse momento. A experiência me diz que, com o tempo, essa conexão física vai perdendo lugar e outras coisas vão ficando mais importantes, mas eu realmente não tenho pressa e sinto que estamos muito bem assim, obrigada.

E se esse primeiro ano foi um sucesso, eu te digo os segredos, vem nimim:

– Confiança. A mais pura e absoluta certeza de que tudo iria dar certo. CLARO que tive dias de fraqueza, descrença, medo, cansaço. Claro que sonhei com chupetas douradas calando a boquinha incansável na madrugada boladona. Mas segui firme, meu objetivo era claro: PEITO NELA.

– Confiança – do Maridón. Que jamais deixou de ser parceiro, de acreditar, de quebrar a cabeça comigo over and over and over sobre as reações, sobre a engorda quando não era boa (teve mês de engordar um quilo, teve mês de engordar 100 gramas), sobre o mundo que tinha que parar porque eu tinha que amamentar. Ele acreditou e jamais questionou (tá, ele sentiu falta da chupetinha, mas já superou).

– Apoio. Da família, que embora estranhe muito tanta restrição, nunca me sugeriu desmamar. Dos amigos que se desdobraram para tentar me alimentar (os de Buenos, principalmente, com todo cuidado e carinho e dedicação, inesquecível). Dos médicos que consultei, nenhum citou desmame. Todos apoiaram.

– Cama compartilhada. Desde um mês de vida, eu durmo com Luiza e ela nunca nem chegou a ter berço. Eu já não tenho mais saúde pra essa vibe de passear pela madrugada pra amamentar criança não. E a minha criança ainda mama de noite sim, duzentas vezes (não sei quantas, estou dormindo).

– Livre demanda selvagem. É livre demanda DE VERDADE. Sem chupeta, sem mamadeira, sem limite de tempo, sem “agora não que tá na hora de … (complete com qualquer atividade)”. Ela quer peito? Ela tem. Na rua, na chuva, na fazenda, eu não uso paninho e se alguém ficar de mimimi que viu um peito, vai ver dois.

– Muita água. Como fiz da primeira vez, uma boa hidratação ajuda muito.

– Acreditar. Já falei, né? Da confiança e tudo mais. Mas é que eu realmente não me deixei abater por peito murcho, por pouca engorda, por alergia, essas coisas. E eu tive tudo isso, mas tudo bem, ficou pra trás. A alergia ainda nem ficou pra trás, mas ah, um dia vai ficar, então tô de boas. Aceitando de braços abertos o que a vida me trás e fazendo uma caipirinha desse limao (mah oêê).

E vamos em frente. Quem sabe por mais um ano?

***

Last but not least, um agradecimento especial: ao Lucas, que foi quem me ensinou que eu posso amamentar sim. É ele quem hoje diz: “mamãããe, a Luiza tá precisando mamaaaaar!” pra qualquer resmunguinho dela. Um fofo, um querido. Foi ele quem me ensinou a confiar em mim, foi ele quem me mostrou que era possível. É possível, filho, é sim. Obrigada!

16 respostas em “Relato de amamentação da Luiza

  1. Sou leitora assídua, há muuuuuito tempo, mas não sou de comentar.
    Mas esse post mereceu.
    Parabéns, por sua dedicação, por sua confiança, por 1 ano de amamentação.
    um beijo muito carinhoso e muitos meses mais de carinho e parceria entre vocês, no mamá!

  2. Ah como eu gosto de vir aqui e ler mais um texto maravilhoso como esse. Ficar dizendo que voce é F fica chato né? Mas voce é ! Que garra. Que força. O mais legal é que voce se abate e no dia seguinte(ou dias ou momentos) levanta a cabeça e diz 'ok vida, mandou mais essa né? peraí que vou te mostrar que não vim a passeio' e vai lá, faz sua parte, arrebenta. Lucas e Luiza são crianças privilegiadas por ter voce como mãe (e maridón a gente sabe que arrasa mas não tem graça ficar aqui elogiando marido alheio). Só posso desejar a voces muita muita muita saúde, muitos muitos muitos anos de vida plena e feliz.

  3. Puxa, que lindo tudo isso! Por aqui chegando em 1 ano de amamentação em LD, também conquistados a duras penas. Com muito suor e lágrimas, mas também com sorrisos, olhares de cumplicidade, chamegos… Passamos por restrições alimentares, engorda mínima, tipo 5g por dia, noites insones. Mas tudo tudo valeu a pena. Que venham muitos outros meses!
    Beijos nas duas, de nós duas.

  4. Olha, sempre leio o seu blog, acompanho desde que fiquei grávida do Luca, uma amiga que é sua amiga me falou e vc, mesmo sem saber me ajudou taaaaaaaaanto! Nunca sou de comentar mesmo, sou de ler, mas esse seu post me arrancou lágrimas, aqui, no meio da saleta mínima do meu trabalho. Pq vi a força de vcs nas palavras, a confiança, que tanto me faltou nos primeiros meses do Luca, mas agora ele tá com 3 anos, lindo, sapeca… Nos pegamos pensando se rola um(a) irmão(ã) pra ele; achamos que não, mas foi tão lindo ver essa foto do Lucas com a Luiza que bateu aquela vontade de ter outro! Hehehehehehehehe! Parabéns! Obrigada pelas palavras!

  5. Nossa carol… leio seu blog sempre e adoro!!! Mas nunca comentei!!!
    Estou passando por esse drama agora com o segundo filho também… na verdade, ainda não sei se ele é alérgico… estou nessa sua fase inicial que relatou… MUITO catarro!!! Pedro tem pego uma virose atrás da outra e está desesperador!!! Só que o intestino funciona super bem, nada de muco, sangue, cores estranhas, nada… rs… Então nem sei se é alergia mesmo…
    Mas amei saber que você achou um super médico! Tem como me passar o nome dele?
    Bjinhos e parabéns pelo blog e pelos pimpolhos

  6. Oi Carol. Estou acompanhando sua luta com a Luíza desde que ela nasceu. Até porque o caso do meu Antonio (segundo filho, também) é um pouquinho mais complexo e eu sempre gosto de ler a respeito para saber como as mães estão agindo. Mas a cesária prematura, a UTI, jogar o emprego para o céu e todas a NNN alergias que vieram posteriores a isso são básicas aqui em casa também. Mas o peito… ele é a salvação de todos os problemas nessa hora. Continue firme nessa! Como disse meu sogro, em uma hora de muito desespero aqui em casa, muita paciência e muito amor, que isso um dia passa! Beijão

  7. Oi Carol! Lindo relato, quanta entrega.. Descobri seu blog quando estava grávida do João (2a5m) e navegava em busca de histórias, vivências e outros tantos motivos mais. Me apaixonei pela sua forma gostosa de escrever, que aproxima tanto, e a gente se sente uma amiga, rsrs Então João nasceu e aí você já sabe. Mal conseguia me acompanhar, quanto mais ler blog. Eis que um dia estou fuxicando o Instagram e descubro seu perfil. E o mais incrível de tudo, reconheci as bochechas da Luiza! Conheci vocês quando fui deixar minha câmera para consertar no Centro. Trocamos algumas palavras, perguntei sobre a experiência de ter dois filhos, como você percebia a distância de idade entre os dois e tals. Nem imaginava que você era a Carol do blog. Mas quando vi o instagram, pronto!
    Estamos desejando o segundinho, mas enquanto ele não vem, voltarei a te acompanhar. beijo enorme!

  8. Carol super parabéns! Eu acompanho o blog desde os cinco meses de gravidez do Lucas…leio tudo! Fico cada vez mais impressionada o quanto vc é guerreira e dedica, sempre achei que seria uma ótima mae, mas te vendo me pergunto será que um dia serei pelo menos parecida? Parabéns de novo.

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