E aqui começa a parte feliz desse relato. Engraçado pensar que o que me deu mais alegria foi bem a cirurgia em si, essa que eu tanto temia. Mas vocês vão ver porque eu gostei.

Quando a médica anunciou que ia começar, eu pedi pro anestesista me ajudar com a tosse chata que me incomodava desde o dia anterior. Pô, se eu já tava lá na cirurgia, bem longe do meu parto natural sonhado, eu queria DORGAS, muitas dorgas. A obstetra concordou fazendo um movimento positivo com a cabeça e ele disse pra eu ficar tranquila que ele ia caprichar, ho-ho. Senti uma certa falta de ar, que ele logo explicou ser efeito da anestesia. Relaxei e passou. Fiquei esperando pelo enjôo que ele disse que também viria, mas por sorte não veio.

Todos me olhavam com carinho e sorriam. Marido acariciava meus cabelos. A equipe ficou em silencio e o que precisava falar era dito bem baixinho entre eles ou me incluindo na conversa. Achei de um respeito enorme aquele cuidado todo. Não passaram nem cinco minutos e a médica voltou a falar comigo, disse “vamos lá?”.

E aí veio o momentão. Desses que você sabe que são únicos na vida.

Baixaram o campo cirúrgico (esse pano que fica na frente pra gente não ver a cirurgia em si), soltaram meu braço direito, todos ficaram em extremo silêncio, só minha médica ia terminando de narrar com voz bem calma o que estava acontecendo.

Nessa hora, eu quis abrir bem os olhos, pedi a Deus pra não me deixar nem piscar.

Meu segundo filho. Ia nascer. Não seria da minha vagina, mas certamente da minha força.

E como aconteceu com o Lucas, de repente o relógio parou, o mundo deixou de rodar e a única coisa que eu vi foi: ela. Uma menina! Veio de bundinha pro mundo, saiu toda redondinha e com certa dificuldade – a cabeça estava bem enfiada nas minhas costelas. Mas ninguém me empurrou ou a puxou com violência, a médica foi fazendo manobras aos poucos e foi retirando a baby com calma e cuidado. Quando ela nasceu todinha, colocaram-na sentada em mim, mas meio distante. Ela abriu os olhos e ficou olhando em volta, sem chorar. Eu estendi os braços e fui delicadamente interrompida – “cuidado pra não contaminar”. Botei o braço perto de mim de novo, mas não entendi aquilo: “mas por que ela não vem pra mim?” – questionei. “Porque estamos esperando o cordão parar de pulsar!”.

Ahhh o cordão! Ahhh a cesárea respeitosa e “humanizada”, eu tinha esquecido! O cordão finalmente parou, me mostraram cortando e trouxeram a minha pequena bolotinha.

Ai meu deus, jamais esquecerei isso. Perguntei pra parteira se eles tinham checado se era uma menina mesmo (aloka, hahaha) e ela disse “sim, olha aqui!”, já mostrando as partes da minha menina pra mim. Ela veio pra perto e eu a peguei.

Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza

O brilhante partiu a luz e explodiu em sete mil amores, eu experimentei a música. Experimentei um amor animal, um amor que explode, que nasce de qualquer jeito e arrebata, te faz morrer e viver de novo.

Morri. Vivi. Nasceu Luiza.

Nos meus braços, senti aquele cheiro incrível de recém-nascido sujinho de vérnix, que ninguém limpou ou esfregou, ela veio pro meu colo tal qual nasceu. E cheirava tão bem a minha bichinha. Era uma vibe tão deliciosa que eu senti uma das coisas mais animalescas que já senti na vida, justo durante uma cesárea: eu quis comer minha filha. Calma, não gritem. Mas era isso. Eu quis lamber aquele cheiro e engolir, não sei o que me levou a ter essa sensação. Coloquei Luiza bem pertinho do meu rosto e cheirava e dava beijos e, sem ninguém notar (acho eu), passava a língua nos meus lábios, porque eu precisava provar aquele gosto. Fiquei literalmente lambendo a minha cria, vivendo aquela poesia toda, dando as boas-vindas pra ela.

Todos elogiavam o quanto era bonitinha e vigorosa, teve Apgar 9-10 e respirava bem sozinha (santo corticoide da semana anterior). Nasceu às 16h26 do dia 15 de julho de 2014, uma terça-feira, um dia antes de completar 36 semanas de barriga.

E eu chorei, chorei muito. Não de soluçar e não de tristeza. Agora eram lágrimas bonitas e fáceis, lágrimas de alegria pela minha pequena, de estarrecida que eu estava de ter tido uma menina! Foi um presente enorme dentro daquele contexto indesejado. Gestei uma menina, meu Deus – eu só pensava nisso. Fosse um menino, não sei como teria sido, não me julguem, mas o fato de ter sido mulher, nossa, foi de tirar o fôlego.

(continua, mas já tá acabando, tá?)

15 respostas em “O relato do nascimento de Luiza – parte 4

  1. Quero tanto te abraçar, Carol! Quando for pro Rio vou lá te conhecer.
    Que força, mulher, que força!
    Ler esse relato – e essa parte de hoje, especialmente – tá bonito, tá forte, tá emocionante.
    Mexeu comigo.
    Imaginei cada detalhe, me arrepiei aqui. Quanta emoção!
    15 de julho também é especial pra mim, você sabe. Essas mulheres que chegaram nas nossas vidas justamente nesse dia não vieram a passeio, não.

  2. Poucos blogs me fazem chorar no meio do expediente. Estou aqui no trabalho chorando. Que relato lindo ! Voce é forte demais ! Já li relatos em que a mulher passou a cirurgia inteira chorando porque não pôde ter o sonhado PN, deixou de viver esse momento lindo da chegada do bebê. Voce não, voce se entregou, viveu o melhor daquele momento. O ambiente ali devia estar impregnado de energia boa demais, pra voce receber essa mulher, que tanto esperou (ainda que inconscientemente). Parabéns mil vezes !

  3. Carol, sabe o que eu mais admiro em você ? Você é de verdade. Sem firulas, se permite sentir o que esta em seu coração, consegue ir do inferno ao céu! Momento sublime em poder saber quem finalmente gerou, essa é a maior recompensa.
    Quem sabe um terceirinho venha pra fechar com chave de ouro ?
    Beijos

  4. Lindo, Carol.
    Arrepiei diversas vezes enquanto lia e senti as lágrimas brotando nos olhos outras tantas.
    Acho que vc transborda aquele clichêzão: "Fazer do limão uma limonada"
    Já que tava naquela situação e não podia fazer nada pra mudar tentou vive- la da forma mais plena, amorosa e linda possível.
    Parabéns, parabéns, parabéns!
    Que a Luiza continue te ajudando a revelar os sete mil amores <3

  5. Escrevi um comentário enorme aqui que sumiu antes de publicar… 🙁
    Vamos lá novamente…
    Conheci seu blog há poucas semanas e já DEVOREI ele todinho. Li cada postagem, o que me tomou um bom tempo.
    Amei sua forma sincera e divertida de escrever. Acho que falta isso no mundo virtual.
    Estou emocionada com os posts do nascimento da Luiza. E o mais engraçado é que nem sei se terei filhos, apesar de 06 anos de casada, mas me delicio e me emociono com essas histórias da vida real.
    Espero que continue sempre postando.

    http://staimperfeicao.blogspot.com.br/

  6. Cesária pode ter momentos assim maravilhosos tbm.
    Toda essa beleza deu-se tbm as intervenções necessárias.
    Parabéns outra vez por um parto cesaria bem mais respeitoso q muitos ditos normais!

  7. Ahhh, que lindo!!! Adoro relatos de parto, sempre me emociono pois lembro do dia que minha Catarina nasceu. Nem preciso dizer que foi o dia mais incrível da minha vida, né? meu parto também foi cesária e foi maravilhoso, mágico, respeitoso e a recuperação, rápida. Também sonhava em ter parto natural mas percebi que existe muito terrorismo em torno da cesária e, sem querer fazer propaganda mas pra mim foi excelente, um parto que não foi menos lindo por não ser natural. Um dia pretendo contar com detalhes no meu blog.
    Que Luíza seja muito bem vinda e muito feliz nessa Terra!

    Beijos!
    http://www.baudabijou.com.br

  8. Oi,nunca comentei mas acompanho desde sempre…
    Aguardando a continuaçao,entro todo dia para ver se postou algo novo
    Adoro te ler…
    Beijo nos pequenos,e outro para vc…

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