Eu tinha diabetes gestacional controlada por dieta. Eu tive uma pequena redução de líquido amniótico às 32 semanas. Eu tive licença-médica e recomendação de repouso por estresse. Eu tive um bebê pélvico (sentado na barriga). Eu tive uma ameaça de trabalho de parto prematuro às 34 semanas. Eu fiquei internada uma semana fazendo corticoide pra amadurecer pulmão do bebê. Eu tive colestase obstétrica.

Acho que qualquer médico cesarista já teria agendado a retirada do meu bebê com apenas uma dessas opções. A minha médica não agendou. Ela me encorajou, na verdade. Por recomendação dela, fiz repouso, fiz ioga, fiz meditação, fiz VCE (versão cefálica externa, pra tentar virar o bebê dentro da barriga e facilitar o parto normal), fiz medicação pra segurar a loucura do fígado. Nunca abandonamos a ideia do parto domiciliar, mas a aquela altura, eu já aceitava um normalzão hospitalar de bom grado. Mas nada adiantou.

Dois dias depois que saí da internação por ameaça de parto prematuro, fui refazer os exames das funções hepáticas e deu tudo ruim. Níveis descontrolados, a medicação não estava segurando a situação. Pra completar, passei todo o dia quase sem sentir o bebê mexendo na barriga. Com isso e o resultado dos exames, liguei pra médica: “e agora?”, perguntei. Ela me mandou direto pro hospital, fazer ultra de emergência, cardiotoco e repetir todo o exame de sangue. A ultra tava ok, o cardiotoco também, tudo indicava vitalidade normal do bebê, mas o exame de sangue saiu ainda pior do que eu tinha feito naquele mesmo dia, de manhã.

Voltei a falar com a médica e ela me disse: “gostaria que você pensasse com carinho na possibilidade de encerrarmos essa gravidez. Siga monitorando a movimentação do bebê e amanhã de manhã converse com a parteira”.

Você acha que eu dormi essa noite? Sabendo que se reduzisse demais o movimento do baby, eu tinha que correr pro hospital? Sabendo que a indicação da minha médica humanizada era uma cesárea eletiva, agendada? Essa merma, sem trabalho de parto, sem contração, essa que você chega feliz e tranquila com a sua malinha no hospital e corta a barriga e sai um bebê?

Pois.

Nessa mesma noite, resolvi parar de tomar a medicação que estava tomando pra inibir contrações. E voltei a senti-las, por sorte. A essa altura, eu já queria entrar em TP de novo, já me culpava de ter inibido na semana anterior. Se Segundinho queria nascer de 34 semanas, porque eu não deixei?

Fiquei me revirando na cama pensando em tudo isso.

Amanheceu o dia 15 de julho, 35 semanas e 6 dias de gestação. Eu tinha muito sono, muito cansaço, uma certa tristeza e muita tosse, talvez tenha somatizado tudo. Me vesti, levei Lucas pra creche e fui pro consultório da parteira. No caminho, elocubrava as mil possibilidades e argumentos, tinha decidido não aceitar cesárea, mas não sabia exatamente porque ia recusa-la. Você estuda anos e anos e quando se depara com uma situação assim, realmente precisa de apoio, de chão.

E eu os tive. Do marido, da parteira, da médica. Mas todos estavam a favor da cirurgia. Todos sabiam o quanto eu estava machucada de ter planejado um parto tranquilo e acabar daquele jeito não estava nos meus planos, mas a preocupação agora era com o bebê: pélvico, prematuro, sem grandes movimentações na barriga e num ambiente que ia se intoxicando a cada hora que passava (pela colestase).

A parteira foi enfática: seu caso é indicação de cesariana, eletiva, pra hoje o quanto antes. A equipe estava de acordo e tinha chegado em seu limite. A decisão final, era obviamente minha, mas a recomendação médica expressa era a de interrupção da gravidez; e sem chance de induzir pela prematuridade e posição do feto. Ainda bem que, enquanto ela falava isso, eu tinha contrações. Tiramos as dúvidas, falamos sobre a boa recepção do bebê, do que se pode fazer pra “humanizar” a cirurgia. Falamos sobre a prematuridade, sobre corte tardio do cordão umbilical, sobre colírio, sobre banho, sobre contato pele a pele.

Olhei pro Pedro e ele disse: “eu concordo. Vamos fazer a cesárea”. Faltava eu concordar.

Ficou um silêncio na sala, eles me olhavam e eu fiz o que tinha feito pouco na gravidez até então.

Chorei. Chorei, chorei, chorei. Chorei muito, chorei de soluçar, deixei todos os meus sonhos praquele momento irem embora em forma de lágrimas gordas, pesadas e insistentes.

No meio de todo esse drama, eu fiz o que jamais imaginei, o que tanto condenei, o que tanto deixei de entender quando outras faziam: disse que sim pra cesárea.

5 respostas em “O relato do nascimento de Luiza – parte 2

  1. Carol, quase senti aqui suas lágrimas. Racionalmente, não é difícil perceber a necessidade da sua cesárea, e que o seu sim não era para uma eletiva sem sentido, portanto, não cabia ali culpa, mas alívio, alívio por ter à disposição uma boa equipe e tecnologia que você e sua filha precisavam, seu sim não era para o que tanto condenou, porque seu sim era para a vida. Porém, não dá para racionalizar tudo e sempre, ainda mais nessas horas. E eu, em seu lugar, também sofreria horrores. Um abraço bem apertado, menina-mulher. Kisses

  2. Carol! A cesaria foi inventada pra isso, salvar vidas! O que você fugiu foi as desnecesarias o que ficou claro que não era seu caso, tanto que a equipe recomendou a cirurgia! Sei que não deve ser fácil passar por uma cirurgia tendo planejado e estudado tanto para um parto natural, mas a vida é assim! A Luiza chegou mostrando que na vida não podemos controlar tudo! Beijos queria adorei o texto

  3. Ai amiga me emocionei com sua história, vive uma parecida e minha bebê nao teve jeito foi fórceps mesmo… Sofri muito no parto, antes tivesse feito uma cesária..
    Nem todas as mulheres são iguais amiga
    Seu sonho era um parto normal,mas as vezes nem sempre é o melhor né?
    beijosssssssssssss

    Sandra crochedivertido.blogspot.com.br

  4. Carol,
    não concordo que seja uma cesárea eletiva, porque no teu caso não havia escolha. Tu não podia optar por aguardar contrações e trabalho de parto, colocando em risco a tua vida e a vida da Luiza. Mesmo assim deve doer, e se permitir a dor e o choro é bom! Faz parte do processo de luto pelo não parto. Um abraço bem apertado!

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