Quase todas as noites, quando ponho a minha cabeça no travesseiro, penso naquele dia 15 de julho. O dia que eu assinei o papel que permitiu que me cortassem a barriga e tirassem a minha filha de dentro de mim.

E preciso mudar o pensamento pra conseguir dormir.

Nem o cansaço que sinto por cuidar de um bebê pequeno me permite simplesmente descansar. É necessário um esforço diário pra pensar em alguma coisa amena – uma praia, uma viagem, uma música – e daí sim eu pego no sono.

***

Andei lendo sobre luto. Num primeiro momento, achei a palavra luto muito forte pro que eu sinto sobre a forma como minha filha nasceu. Mas depois avaliei bem e pensei que sim, eu sinto um luto forte. Perdi o parto que eu tanto sonhei por tantos anos, perdi a chance de estar plenamente feliz, perdi meu corpo sem cicatriz alguma, perdi convicções que eu tinha tão fortes. Não foi só perda, foi morte.

Ali morreu um sonho. Morreu uma pessoa. Morri eu.

E da minha morte nasceu Luiza, a filha mulher que eu esperei a vida toda. A mulher que eu queria perto, depois de perder tantas. A morte encontrou com a vida e uma olhou pra outra; e ficou uma marca na minha barriga pra eu lembrar pra sempre.

***

Mas, como a memória é traiçoeira, essa lembrança e essa dor e essa alergia eu quero compartilhar. E hoje vou começar a contar essa história pra vocês.

Não sei em quantas partes, não sei em quanto tempo. Mas eu vou.

Vamos?

15 respostas em “O relato do nascimento de Luiza – parte 1

  1. Carol, acompanho seu Blog desde sempre, mas acho que nunca comentei.
    Mas creio que possa te oferecer algumas palavras (que foram ditas por meu marido), sobre como lidar com o luto.
    Há quase dois anos perdemos nosso Henrique, com 1 ano e meio, picado por um escorpião. Foi uma dor sem fim, e ainda hoje há dias melhores e piores, mas, durante o velório, meu marido disse uma coisa que eu acho que é a mais certa pra esse tipo de situação: numa situação dessas, nós podemos nos apegar à morte ou à vida. No nosso caso, à morte do nosso pequeno, ou à vida de nossa filha, então com 3 anos; no seu caso, à morte do seu sonho, ou à vida da sua filha!
    Passar pelo luto é importante, se deixar sofrer também, mas saber que a vida é muito mais importante que tudo isso é primordial!
    E você tem, pelo menos, dois preciosos motivos pra viver e ser feliz! Seja feliz, sempre! Beijos.

  2. Querida, ninguém é juiz do sentimento dos outros. A dimensão que uma frustração nos traz depende de uma série de questões interiores, que não podem ser mensuradas por terceiros. Não tenho a intenção de julgar seu sofrimento de modo algum. Mas percebo que há uma certa opressão nos blogs maternos quanto à submissão à cesárea. E isso gera uma angústia muito grande nas autoras, como se tivessem que se justificar por terem supostamente sucumbido, ou demonstrar algum tipo de arrependimento pelo "pecado" do parto inadequado. Outro dia, li em um blog que, ao ver-se na iminência de se submeter a um parto cirúrgico, a autora só pensava no que ia dizer às leitoras, depois de tantos posts inflamados sobre o parto natural. Não acredito que seja o seu caso, pois vc é muito independente (lembra a história dos cachorros?). Mas não deixe que pese uma sombra sobre o nascimento de sua filha por qualquer elemento externo que não seja exclusivamente os seus reais sentimentos e de sua família. Fique bem! Estava com saudades. Bjs.

  3. Carol, sou leitora assídua e silenciosa. Vc é linda, fofa e maravilhosa, saiba disso! Sinto muito por sua dor e quando li o post lembrei de uma técnica, que é maravilhosa, de autocura e perdão, chama-se ho'oponopono. Vc já ouviu falar? Pratico diariamente e os resultados são incríveis. Procura no you tube: "ho'oponopono" e "entrevista". Acho q vai te ajudar mt, assim como me ajuda. Bjs nessa mulher tão forte e poderosa e nessas coisicas deliciosas q vc tem na sua casa.

  4. Eu fiz cesárea, eu quis cesária, eu escolhi cesária.
    Eu até penso e gostaria de tentar ter um outro parto natural/normal, mesmo.
    Mas Carol…
    Eu gostei da minha cesária, eu de verdade gostaria de entender pq as mães sentem essa culpa…
    Eu tó morrendo de medo de te ferir, ñ é minha inteçao aumentar sua dor, seu luto, me perdoa, mas a Luísa é a menina mais linda q uma mãe pode desejar ter.
    Do mais profundo do meu coração, com amor e respeito, sou mãe de um único filho, saudável, q dps de nascer viu-se o qual difícil seria nascer de parto natural e pôs maturo.
    Esperei 41 semanas, ele engordava normais 30 g por dia, teve problemas com a glicose, veio pra casa com o calcanhar mais roxo q uma berinjela de tantos controles.
    Eu quando ví aquilo literalmente paralisei.
    Ele cresceu e engordou muito e complicou a glicose, duas circular de cordão, eu primeiriça, verdadeiramente creio q foi melhor interromper na 41 semana.
    Veja bem, eu penso ser uma cor linda, um odor agradável ser mãe de cesária de bb vivo q uma mãe chorosa de bb falecido por um parto normal.
    Carol, procura suporte psicológico pra trabalhar seu luto.
    A Luísa é linda!
    Viva a Luisa!
    Viva a vida.
    Viva todas as vias de partos q nos garantirem nossos filhos em nossos braços.
    Felizes, amados e sobre tudo SAUDÁVEIS.
    Lê o blog o Apê de nós três o sofrimento (fetal) e atual q custou a longa espera pelo parto normal/natural.
    Um forte abraço, te admiro!

  5. Vamos, Carol! Vou com você!
    A cesárea precisa ser digerida, e dói, mas é necessário. Sofri muito até entender que tudo faz parte de um grande acordo maior do que nós podemos entender, e que tem um motivo pra ter acontecido como aconteceu.
    Da minha dor, fiz alguma coisa. Me tornei doula, e hoje digo muito pras mulheres que a dor do parto deve ser sentida e atravessada, e nunca controlada. A mesma coisa é com a cesariana, a dor emocional que fica depois dela precisa ser sentida e atravessada, e o fato digerido. Você precisa antes de tudo se perdoar, Carol. Aos poucos, a paz virá. Demorou pra mim, mas veio! E como ela foi libertadora.
    Vamos juntas!

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