Acordei com apitos esquisitos do cardiotoco e vi pessoas em volta com cara de preocupadas. Me mandaram deitar em outra posição, me deram oxigênio numa máscara para respirar. Os apitos pararam. Vi a parteira conversando qualquer coisa com alguém, mas não me lembro direito quem era, tudo ficou confuso nessa hora. Eu dormia e acordava, não sabia se estava sonhando ou não. Vi a parteira pegando uma espécie de agulha enorme e enfiar aquilo em mim sem muita explicação. Eu estava anestesiada e não senti dor, não senti nada. Fiquei na dúvida sobre o que era aquilo, afinal minha bolsa já estava estourada, mas obviamente ela estourou de novo – o que foi aquilo? Nunca soube, ninguém me contou, nem falou nada sobre o que estavam fazendo.

Logo depois, nova alteração nos batimentos do bebê, me fazem outro toque e tiram o rebordo de colo que eu tinha. Novamente não sei o motivo, nem quem decidiu pela intervenção. Eu não fui. De tudo isso, eu só tinha autorizado a anestesia… não entendi nada. Não perguntei nada. O clima era bom e todos sorriam, não parecia estar acontecendo nada fora do normal.

Cochilei novamente.

Acordei com movimentação na sala, fizeram outro toque: “10 centímetros, pode começar a empurrar!”. Tomamos um susto. Eu estava dormindo, grogue, alheia – como assim empurrar? Fiquei empurrando um tempo, meio sem jeito, meio fora da contração. Como estava com as pernas pesadas e o cardiotoco, fiquei empurrando deitada mesmo, o que era bem difícil e, sei lá porque, voltei a sentir dor.

Mas não era dor de contração, era uma pressão muito forte lá embaixo, o bebê se posicionava e eu estava sentindo – hoje eu agradeço por ter sentido pelo menos isso!

Finalmente minha GO fofa chegou, sorriu e fez alguma piadinha sobre o dia perdido de folga dela. “É, ela não trabalha às quintas”, pensei, um pouco envergonhada. Ela comentou do trânsito, que quase não chegou e tal. Percebi essas coisas, mas fiquei feliz de que ela tinha chegado e que não perderia o nascimento do meu filho. De repente a sala se transformou, apagaram as luzes, todo mundo se paramentou, surgiram mesas com materiais cirúrgicos. Eu devia ter desconfiado. Materiais cirúrgicos no meu parto normal.

Me mandavam fazer força na hora certa, mas não sei se eram forças eficientes. Eu sentia dor, não estava numa posição muito boa, tudo ficou confuso, eu fiquei perdida e aí aconteceram duas coisas quase ao mesmo tempo que me doem. Eu sou capaz de relevar e achar tranquilo tudo isso que contei até agora; o clima era bom e eu estava de acordo com tudo, embora não tenha sido muito perguntada sobre as minhas preferências, não cheguei a me sentir desrespeitada. Mas o que vem a seguir me mata: eu vi claramente a médica pegando uma tesoura pra fazer uma episiotomia. E fez. Diferente de todas as outras coisas, que demorei anos pra elaborar, essa foi uma porrada sentida na mesma hora. Minha médica tinha me cortado sem me perguntar nada, sem a minha autorização. Porra.

E logo depois, o pior, o que não aceito até hoje, isso sim eu demorei muito tempo pra aceitar, não contei pra ninguém, senti vergonha e me culpei (mas por que eu me culpei???): a médica chamou a parteira e sinalizou alguma coisa. A sinalização era uma indicação pra parteira SUBIR NA MINHA BARRIGA E EMPURRAR PRA BAIXO. Manobra de kristeller, conhecem? Prazer, meu nome é Carolina. Isso foi tão escroto que eu simplesmente apaguei da minha mente que tinha acontecido. Por muito tempo, só me lembrava da força descomunal, de gritar e de tudo isso rapidamente perder o sentido, porque o mundo parou e meu filho surgiu. Nasceu e eu o vi e foi isso que fez tudo valer a pena.

O lado bom é que ele nasceu e não foi aspirado nem imediatamente separado de mim. Nasceu e foi diretamente pro meu colo, sujinho mesmo, pele a pele. Mas, minha memória é muito borrada: não sei o que aconteceu com o cordão umbilical nem quando foi cortado e não lembro quanto tempo ele ficou no meu colo. Efeitos da anestesia, talvez? Não sei.

Sei que ele foi levado pra outra sala, no colo do Pedro mesmo. Eu fiquei sendo costurada e ironicamente senti os pontos, acho que a anestesia já tinha ido toda embora. Não sei mesmo. Não tenho ideia do tempo que passou, mas sei que logo Lucas voltou no colo do pai (foi menos de uma hora, eu lembro de olhar o relógio e ter a noção de que ainda não eram 10h da manhã – Lucas nasceu às nove em ponto). Aí foi lindo porque aquele bando de gente tinha saído da sala e ficamos, finalmente, só nós três.

É engraçada essa coisa de estar no hospital e mais louco ainda é perceber a reação que eu tive: fiquei com o bebê no colo sem fazer nada. Não olhei dentro da roupa, não mexi nos paninhos que o embrulhavam, não botei no peito. MEU FILHO e eu ali esperando uma orientação, uma autorização. Só olhava pra ele, embasbacada. E tudo bem, o filho nasce e a gente realmente fica tomada por uma idiotice linda, mas pra quê esperar orientações de outra pessoa? A gente tá tão habituado a seguir regrinhas e padrões e modelos sem sentido e explicação que, na falta de algum, ficamos abobalhados sem reação.

Mas, por sorte, apareceu um anjo em forma de enfermeira, que me sugeriu amamentar e ajudou a botar no peito. Além disso, quis saber se eu estava com fome ou sede ou precisava de algo. Segundo ela, não podia comer ali no centro cirúrgico, mas ela ia “burlar” o procedimento e ia trazer algo pra eu me alimentar. Voltou com um iogurte, um biscoitinho, água pra mim e pro marido, uma linda. Enquanto isso, Lucas sugava fortemente e eu – empurrada por ele, o recém-nascido – começava a assumir o protagonismo que me cabia (e me cabe) como mãe.

(continua)

3 respostas em “Elaborando o parto do Lucas – parte 3

  1. Carol, descobri o seu blog quando estava grávida, procurando no google sobre hematoma no saco gestacional. Fiquei de cama por 15 dias e o seu blog se tornou minha leitura preferida. Chorei como se fossemos amigas quando li sobre o aborto, mas eu sabia que sua historia tinha um final feliz por causa das fotinhos da barriga la embaixo. Estamos todas sujeitas a qualquer tipo de violência obstétrica, mas o importante é nos informarmos e evitar que isso volte a acontecer. Deixei bem claro em todas as minhas consultas obstétricas que não queria intervenções. Se você quiser ler, escrevi sobre o parto do meu filho lá no meu blog. Apesar de ter sido maravilhoso e sem intervenções, ainda penso no momento em que ele teve que ir para o berçário, pois era regra da maternidade. Ele mal tinha nascido e já ficou sozinho. Me faz pensar em ter um próximo parto em casa, mas ainda tenho um pouco de medo.
    Agora você já tem mais informação e esta mais empoderada, com certeza terá lembranças diferentes do parto do segundinho.
    Beijos

  2. Carol, ler sua revista ao seu parto está sendo uma revisita total ao meu primeiro parto. Fiquei tocada com o último parágrafo…sim, a gente é educado a seguir regras desde que nascemos…sair dessa linha de produção – e principalmente se enxergar assim, um subproduto do parto, dói demais! Eu sei que dói mais em mim as minhas não escolhas do primeiro parto do que as minhas escolhas do segundo. Por aqui a episio tb veio, assim como ociticina, manobra…mas tudo fica para trás quando o BB nasce. E a gente esquece do que viveu. Só o que importa é que aquele bebê que vc esperou tanto está ali, e está bem! Com a Ísis houve aspiração e eu ainda ouço o som daquilo nos meus ouvidos. Ela foi pesada, esfregada e medida antes de vir para oi colo. Chorou demais. Só parou quando veio para o meu colo e nunca, nunca na vida vou esquecer aquele olhar. Eu me apaixonei por ela e quase vi meu desamparo refletido nos olhos dela. Ela mamou bem, mas eu ainda teria que superar alguns tabus com a amamentação…não consegui com ela, mas consegui com o Pedro. E vamos para o final (ou seria o começo?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *