Tenho pensado nesse relato há alguns anos. Desde que contei aqui sobre o parto do meu filho, poucas semanas depois que ele nasceu, sempre ficou a sensação de que tudo precisava ser revisto. Não para fazer uma crítica vazia do que foi, mas pra assumir, mais para mim mesma do que qualquer outro, de que tive um parto cheio de intervenções. Um parto normal hospitalar frank, se é que vamos dar nome aos bois.

Foi um parto ruim? Não. Foi tudo que eu queria e imaginava. Foi o que fui capaz na época e me senti orgulhosa dele por muito tempo. Saímos da experiência renovados, satisfeitos, saudáveis.

Então por que recontar? Por que reviver?

Porque agora sou outra. Três anos de maternidade, muita leitura e estudo. E mais um bebê na barriga.

E hoje, aquele parto lá não é, nem de longe, o que busco para meu segundo filho.

***

Tive uma gravidez chata. Tinha acabado de sair de um sofrido aborto espontâneo de primeiro trimestre e logo fiquei grávida de novo. Estava completamente convencida de que não era capaz de gerar direito uma criança, que qualquer problema poderia (e iria) acontecer comigo. Os que de fato aconteceram foram sempre levados ao extremo – emocional, físico – vivi tudo muito intensamente, foi muito cansativo. Ultrassom o tempo todo, medo o tempo todo. No primeiro trimestre, tive hematoma subcoriônico, indicação de repouso, progesterona; logo depois aparecimento de brida no útero; em seguida, um médico me assustou com uma inserção marginal do cordão umbilical na placenta; depois diabetes gestacional, atendimento com endócrino e dieta; e, por ultimo, a cereja do bolo: colestase obstétrica.

Essa última eu descobri com 36 semanas de gestação e indicava interrupção da gravidez até, no máximo, 38 semanas. Isso foi numa segunda-feira. Na quarta, entrei em trabalho de parto espontâneo com rompimento da bolsa. Então a única complicação realmente grave de toda a gravidez foi vivida por apenas dois dias. E eu já estava tão cansada de tudo que nem cheguei a me importar tanto.

De tanto sofrer (ou de me impor sofrimentos, quem sabe?), fui deixando a responsabilidade, a autonomia e a confiança na mão de qualquer um. A escolhida da vez era a médica, que é realmente fofa: nunca propôs cesárea, sempre me falou que eu ia ter parto normal siiiim e sempre me escutou com calma. Embora as consultas fossem rápidas e a sala de espera insuportável (uma, duas horas de atraso), eu sempre saía de lá mais leve – ok, a leveza durava um dia no máximo, mas eu ficava satisfeita.

Em paralelo, fazia um curso de pré-parto com a parteira que ia me acompanhar e achava que tava controlando a situação. Não desconfiei que um curso que tinha umas 50 gestantes com a MESMA parteira, por acaso faria com que ela me atendesse como qualquer outra – SE me atendesse, já que 50 mulheres com mais ou menos a mesma idade gestacional iam parir juntas, certeza. E tampouco desconfiei que a médica que marcava 5, 6 pacientes por hora também fosse me colocar na mesma linha de produção padronizada, sem individualizar.

Mas eu nem queria individualizar nada! Queria, dentro do plano de saúde, o meu parto normal, pronto. Queria meu filho vivo. Queria um mínimo de respeito (dentro do que eu achava que era respeito na época).

E tudo isso eu tive.

(continua)

Um comentário em “Elaborando o parto do Lucas – parte 1

  1. Oi, Carol! Eu vi as chamadas para esses seus textos, mas sabia que ia me identificar muito com eles, como quase sempre acontece, então esperei para vir com calma, para ler tudo com atenção e comentar, como sempre gosto de fazer. Ando meio devagar na vida internética materna, por causa da migração para o facebook, que não entro sempre, e também, principal motivo, porque estou correndo atrás dos meus sonhos. Mas deixa eu comentar o seus texto! Guria, super me identifiquei! Foi exatamente assim na gestação da Ísis. Eu não busquei individualização, eu queria meu parto normal no hospital, pelo plano. A luz vermelha acendeu quando minha médica me disse que não estaria presente para atender meu parto (eu estava completando 38 semanas) e ela me encaminharia para um médico colega, que eu descobri na primeira consulta ser um baita cesarista. Acabei num parto hospitalar cheio de intervenções, mais por "sorte", afinal, poderia acabar numa cesárea, do que por juízo. E foi este parto, que foi tão especial para mim, apesar das intercorrências, que me fez querer mais numa segunda vez. Acho que comecei a construir o meu parto domiciliar ainda na sala de recuperação do hospital. Então isso era um parto hospitalar?, eu pensei. Foi tão forte! Imagina como não deve ser parir naturalmente, seguramente, respeitosamente… Sabe, acho que a maioria de nós tem esse mesmo começo…muitas nem conseguem o parto normal. E que bom, que bom que podemos revisitar nossas escolhas antigas para escolhermos melhor numa segunda vez! Vou lá ver a segunda parte!

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