32 meses, 17 dias e algumas horas.

Foi o tempo que durou Lucas se alimentando de mim.

Ontem, pensando muito sobre o assunto, me deu vontade de chorar. Tive saudades. Mas cinco minutos depois eu tive foi orgulho, muito orgulho. Não que eu me sinta mais do que a mãe que amamentou um ano, um mês ou um dia. Eu sinto que eu venci uma batalha minha, atingi um sonho meu, só meu. E sinto também que, durante este tempo de maternagem (e de peito) eu aprendi que ninguém é capaz de julgar as escolhas de uma mãe. Se amamentou, se pariu, se deu orgânicos, se compartilhou cama… nada disso, isoladamente, é capaz de determinar quem é aquela mulher. Somente ela pode olhar pra si e refletir sobre suas escolhas.

A minha escolha, como vocês sabem, foi amamentar. Sem ter data definida pra acabar. Mas, como sobre isso já falei (e muito), vou contar pra vocês como foi o fim.

Pra quem quiser ler sobre como foi o todo, aqui vai um tantão de links sobre a minha história e a do Lucas com as peitas:

Felicitaciones por Las Tetas – O Começo
Sobre Alergia, Esforço e Amor
Retorno ao Trabalho e o Medo do Desmame Precoce
Como Lidar com as Secas de Leite
Um Ano! Relato de Amamentação
Sobre Ordenha
Guia Prático Para Trollar A Amamentação Alheia
E Vivam os Peitos!
Amamentando Depois de Viajar A Trabalho
Aos Dois Anos, O Começo do Desmame
Dando Peito pra Menino Grande
Desmame Noturno
30 Meses Amamentando
Tentando Engravidar Durante Amamentação
Amamentando Grávida

Em algum momento depois que Lucas fez dois anos, eu tomei duas decisões que acho que marcariam o desmame total, 8 meses depois: dei uma limitada na livre demanda e parei de ordenhar leite. A limitada na LD foi relativa, já que Lucas ainda mamava durante a noite e ainda usava peito como consolo. Mas parei completamente de ordenhar porque já estava muito cansada e porque via que Lucas acabava preferindo tomar leite de tarde na creche do que comer frutas ou outros lanches. Senti que isso precisava mudar. Até tentamos mandar leite comum e iogurtes pra ele tomar de tarde (aqui na Argentina é normalíssimo criança “lanchando” leite, Lucas é o único da salinha dele que hoje em dia lancha frutas ou sanduíches), mas não funcionou. Ele não curte o gosto mesmo, nem com achocolatado.

Encerrado o hábito de mamar a qualquer hora e beber leite de tarde, ficaram as mamadas de quando acordava, quando voltava da creche e a de antes de dormir – que não eram fixas, muitas vezes ele adormecia sem mamar numa boa. E também ficou a da madrugada.

Depois disso, Lucas já com 28 meses, rolou a polêmica deu não conseguir engravidar de novo por ainda estar dando peito (mais aqui). Fiz um check up geral e vi que minha prolactina ainda estava altíssima – lógico, dando peito 3 vezes por dia + madrugada, qual não estaria? Juntei o útil ao agradável e fiz o desmame noturno e cortei totalmente a livre demanda, aí Lucas tinha por volta de 30 meses e mamava manhã, fim de tarde e, ocasionalmente, antes de dormir.

No mês seguinte, engravidei. E, com a gravidez, veio o cansaço, a falta de leite, a dor nos seios. Lucas sentiu a “concorrência” chegando e cismou de querer mamar o tempo todo. Eu, na contramão, queria dar o peito cada vez menos. Também com a gravidez veio o medo de perder o baby, porque dizem que amamentar faz com que o útero contraia e, embora eu tenha me cercado de evidências que explicassem que essas contrações não causavam nada pro bebê, continuei com medo. Mas, com a ajuda de algumas queridas (Lia, Anne, Pat Boudakian, comunidade Cesárea? Não, Obrigada! – perdão se esqueci de alguém!), venci esse medo e me decidi a seguir dando o peito, Lucas estava realmente precisando muito. Passado esse iniciozinho de medo (meu) e carência (dele) e, vendo que a produção de leite só caía, fixei o nosso momento em um só: a mamada ao acordar. De resto, eu não dava mais. E assim ficamos por um pouco mais de um mês, mas eu sentia que não tinha quase leite (nem o ouvia engolir nada) e que Lucas ficava ali só pelo hábito gostoso de acordar e ficar abraçadinho comigo.

Até que, na semana passada, ele esqueceu de pedir. Eu, grávida e sonolenta, achei o máximo que o Maridón foi diretamente dar o café da manhã e pude seguir dormindo, sem ter que acordar pra dar peito. No final do dia, senti o peito dando uma leve enchidinha (até fiquei animada!!) e ofereci totalmente fora de hora (bobona e apegada, essa sou eu). Lucas aceitou e, quando veio mamar, a surpresa: ele não sabia mais o que tava fazendo. Errou a pega, meteu o dente e olhou pra mim com cara de “hein?”. Eu logo dei por encerrada a mamada e falei “filho, desaprendeu, foi?”. E rimos. E acabou.

Desde então, não pediu mais, não falou nada, não chorou, meu peito não encheu, ninguém sofreu e eu não saí rolando pelo chão de saudades e desespero (como eu jurava que ia fazer), nem ele saiu rolando pelo chão de birras (como eu jurava que ia fazer).

Ontem, depois de uns 5 dias sem nada acontecer, achei por bem formalizar a nossa situação:

– Filho, queria falar uma coisa com você.
– Aham, mamãe.
– Você sabe que acabou o peito, né?
– É, mamãe, cabou peito.
– Você sabe que mesmo assim mamãe sempre vai estar aqui pra você, né?
– Aham, mamãe.
– E agora que não tem peito, o que você quer?
(achando que ele ia pedir um beijo, um abraço demorado ou cinco minutos de silencio respeitoso em memória do peito cheio de leite)
– Banana!!!

(e saiu correndo pra fruteira rindo doidinho)

Então foi assim. Conduzido por mim até algum ponto, conduzido por ele em outro, até o final. Uma dança em que dançaram dois, somente nós dois. Com respeito, amor, carinho. Eu acho que foi toda uma experiência bem-sucedida, com desfecho natural.

(agora senta lá e descansa, Carolina, que daqui seis meses tem mais!)

última foto mamando, aos 30 meses

Obrigada, filho. Por isso e por muito mais do que você imagina.

27 respostas em “O relato do desmame

  1. Muita emoção a sua história, Carol!
    Essa coisa de respeitar o tempo da criança – e o nosso tb – sempre me emociona!

    Sério mesmo. Esses dias mesmo tava aqui pensando em amamentação, como vai ser (sem idealizar muita coisa) e tal, e juro que pensei em você, porque acompanho aqui sua história há bastante tempo.
    Então, se eu tiver dificuldades, saiba que irei te procurar, ahsuahsuahsuhasa

    E descansa aí que daqui a pouco começa tudo outra vez o/

    Beijo grande!

  2. que lindo!!! gostaria muito que com minha filha de 24 meses fosse assim… parei com a livre demanda, só dou na hora da soneca da tarde e na durmida da noite e as vezes quando acorda de madrugada. Mas na verdade eu queria que ela parasse de vez, mas sem choro, nem birra..

  3. que lindo relato Carol
    eu estava tentando desmamar a Bebela, mas como não quero que seja uma experiência traumática desisti. Até porque ela mama muitas vezes, e só dorme se for no peito. Ela vai fazer 13 meses, e vou seguindo assim até ela demonstrar que está pronta para desmamar.
    bjos

  4. Aqui Carol eu realmente tenho certeza que vou chorar muito, liam mama 3 vezes ao dia e de madruga não mais, só que eu sou muito carente e apegada e o peito é o nosso momento e aqui estou passando por uma fase do Liam em que ele só fala papai e não fala mamãe mais, se ele largar o peito….nem sei o que será de mim rsrsrs

    Achei lindo que foi natural, realmente como vocês esperavam, tudo tranquilo e numa boa 🙂

  5. Que lindo o relato!
    Parabéns pela trajetória. Também tenho muito orgulho de ter conseguido ir além nas metas de amamentação que eu tinha estabelecido.
    Amamentar é muito bom, mas também muito difícil!
    bjs

  6. Carol, acompanhamos tanto essa sua história de amamentação que podemos comemorar juntas, não é?
    Parabéns. Vc está de parabéns.
    Fez de tudo para amamentar, só Deus sabe…. fez de tudo para conseguir amamentar mesmo com a APLV, com a vida corrida, trabalhando fora, viajando a trabalho…
    E deu certo!

    Parabéns! O seu desmame foi lindo. O do Lucas também.
    <3

  7. Carol, que belo relato! Sensível e totalmente conectado na relação mãe e filho!

    Confesso que estou numa fase meio saco cheio da amamentação. Estou naquele momento das noites insones com o baby grudado no peito sabe? Aqui a Clara com 1 ano e 4 meses é só amor (pelo peito): acorda umas 4 vezes por noite para mamar. Ai Jesus amado… tô só o pó! Mas enfim, faz parte.

    Beijos!

    Ananda

    http://projetodemae.com.br/

  8. P-A-R-A-B-É-N-S Carol pela etapa vencida!!! Você tem sim muito do que se orgulhar garota!!! O sentimento de dever cumprido é bom demaaaaaaais!!! E que venha o Segundinho!!! Beijos.

  9. Que história linda, Carol! Mega orgulho de vcs! Eu, que acompanho faz tempo toda essa trajetória, fiquei mega feliz pelo seu término leve e risonho, como eu gostaria que fosse por aqui. Pedro e eu completaremos 24 meses de amamentação juntos no domingo. Vc é sempre uma inspiração pra mim! Beijos, Nine

  10. Carol, depois, se quiser me mandar umas fotos da amamentação do Lucas. Eles crescendo ao redor do seio. Faço o vídeo com a música qe vc quiser, posso anexar pequenos vídeos e fica para vcs uma treto linda desse tempo que fez o Lucas se tornar o menino esperto e comunicativo que é.

  11. Carol, mal comento aqui, mas acompanho vocês de pertinho…
    meus olhos encheram d'água com esse post, pois amamento meu filhote de 1 ano e 9 meses, e sofro muuuita pressão pra desmamá-lo, mas não quero fazer isso abruptamente. Sempre tenho um belo discurso na ponta da língua pra dizer que na hora certa ele vai largar, por conta própria. Mas confesso que tinha minhas dúvidas… ja li varios relatos de bebês que largam o peito por conta própria, e agora lendo o seu, estou totalmente convencida!
    O respeito em primeiro lugar, sempre!
    Beijos

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