Acho que este é o texto mais demorado (estou pensando nele há um ano!) e importante que já escrevi. Talvez mais importante que o
relato de parto em si.
Mas, antes de começar, acho que se faz necessário um disclaimer:
1. O texto é longo e fala de aleitamento materno, basicamente. Tá sem tempo ou de saco cheio do assunto? Tudo bem, nos vemos num próximo post.
2. Toda a experiência relatada é exclusiva e pessoal: consulte com seu médico antes de tomar qualquer decisão parecida, ok?
3. Eu não sou contra nem acho erradas as mães que não puderem/não conseguiram/não quiseram amamentar ou que, ainda, desmamaram seus filhos com 1, 2, 10 meses. Falo aqui sobre o que acredito ser o melhor pra mim e minha família, então não vista carapuças, viu? Não to criticando ninguém aqui.
Dito isso, vamos ao que importa de verdade: eu dou peito pro meu filho. Ainda. Muito. Sem data pra acabar. Embora já tenha falado diversas vezes sobre a nossa experiência de amamentação, eu nunca tinha amarrado tudo num post só porque tinha medo de dar zica na meta que tinha, que era de alcançar 1 ano dando peitA, sem leite artificial, sem complementar, sem cair nos clássicos medos da falta de engorda do bebê ou do leite fraco.
Quando estava grávida, diferente da certeza que eu tinha que queria parto normal, amamentar era uma incógnita. Só fui saber o que eu pensava sobre isso depois que fui mãe e hoje afirmo, sem medo: amamentar meus filhos é fundamental, é vital e eu não medirei esforços pra que isso aconteça. Cansaço, sono, falta de liberdade, nada disso é tão importante pra mim quanto viver a magia que é produzir alimento pro meu filho.
Pois bem, Lucas nasceu de parto normal, que acho que foi o primeiro grande incentivo pra amamentação começar a acontecer. O segundo foi tê-lo grudado no meu peito antes dele completar a primeira hora de vida - eu ainda tava loucona da ocitocina, ainda na sala de parto, ainda suja de sangue e ele ainda sujo de vernix. Eu não tinha a menor idéia do que estava fazendo, ele sim, ele sabia. Veio pro peito e grudou e ficou meia hora ali pendurado. E foi ali, naquele momentinho. Quando aquela boquinha minúscula e forte grudou em mim. Foi como se eu tivesse botado meu dedo na tomada, fez tzzzzzzz em mim, tomei um choque, um choque de vida pulsante. Que demais aquele momento.

Os dias no hospital foram bastante importantes, porque lá o aleitamento era muito incentivado. Recebia visitas constantes de consultoras de amamentação e enfermeiras muito carinhosas que explicavam sobre a importância do nosso primeiro contato – o leite em si (na verdade, colostro!) não era tão importante porque todos os babys nascem com reserva pra esperar o leite descer. O fundamental era o nosso toque, o pele-a-pele, isso sim incentivaria o bebê a sugar e “ativaria” a minha produção. Também nesses encontros com as profissionais de lá, ganhei pomadas de lanolina, que cicatrizam as feridas do começo e conchas pra proteger a pele do mamilo da roupa e demais atritos. Tivemos alta e, antes de ir pra casa, duas surpresas felizes: o leite tinha descido com força total e o baby tinha perdido pouco peso de nascimento. Isso me deu confiança de que estávamos no caminho certo.
Em casa, virei a doidja da peita: o bebê abriu a boca? Peito nele. E acho que passei os primeiros muitos dias amamentando de hora em hora, dia e noite. Quase não dormia, não fazia outra coisa senão dar peito. E aí fiquei doente. E aí veio a primeira grande derrota: a chupeta. Eu dei. Pra poder dormir um pouco, admito. Nesse momento eu não sabia, mas a verdade é que a chupeta depois veio a ser minha grande aliada quando tive minha primeira seca de leite.
Bebezinho engordou bem, mamãe ficou feliz da vida. Neste momento, o que me ajudava: muita atenção à pega correta pra evitar feridas, baby mamando em diversas posições, pra machucar partes diferentes do mamilo, gotinhas do meu próprio leite no mamilo pra ajudar a cicatrizar depois das mamadas, pomada de lanolina depois que as gotinhas secassem, conchas de amamentação o tempo todo nas peitas, pra evitar atrito com a roupa, estimular a produção e conter o leite que vazava. Evitava ao máximo esses absorventes de seio (hoje são meus grandes companheiros porque o leite ainda vaza), que machucavam e não deixavam o mamilo respirar e também evitei esse bicos de silicone porque tive medo do bebê acostumar e não querer mamar sem isso. Meu peito ficou mais de um mês doendo de tão duro, de tanto leite, e os mamilos super sensíveis, mas não era insuportável. Então encarei.

Depois que a coisa se estabeleceu, Lucas tinha mais ou menos um mês, eu tinha outra neura: vivia morrendo de medo de ter pouco leite ou dele mamar muito pouco (ele sempre foi muito rapidinho nas mamadas). Por isso, Lucas só mamava um peito por mamada, assim eu garantia que ele chegaria no leite mais gordo, o que está no final da mamada. Até oferecia o segundo peito, mas ele raramente (ou nunca) aceitava. Além disso, virei a neurótica da água, bebia pelo menos 500ml entre cada mamada, era meu mínimo proposto. E também às vezes ordenhava com a bomba manual pra ver quanto ia sair (e cronometrava o tempo, pra ver se os 5 minutos que Lucas passava ali lhe garantiam um mínimo aceitável de leite).
Só que, embora engordasse bem, foi também nessa época que Lucas virou um bebê muito irritável. Além das cólicas comuns pro período, ele passava o tempo todo chorando, dormia mal, se contorcia, era ansioso ao mamar. Primeiro pensamento? Esse bebê tá com fome. Mas, antes de complementar qualquer coisa, fui a vários médicos. Primeiro achamos que era refluxo, depois chegamos no diagnóstico da APLV.
O problema era justo o leite! Justo o meu leitinho tão querido e amado e pensado pro Lucas, tava contaminado!
Me senti culpada, fiquei triste. Mas ainda porque a solução era eu fazer uma dieta quase impossível: restritiva, limitada, me deixaria ainda mais anti-social do que eu já estava, mais sozinha do que nunca. Foi a primeira vez que pensei em desmamar.
Mas as opções eram tão ruins ou ainda piores – o leite sem a proteína do leite de vaca custava os olhos da cara, o gosto era péssimo (eu provei) e me senti totalmente egoísta de não ser querer ajudar meu filho “poxa, um ano de dieta, qual é o problema? Um ano em tantos já vividos e outros tantos pela frente? Vou acovardar agora? NÃO. E NÃO”.
Enxuguei as lágrimas, levantei a cabeça e fui. Me joguei como quem se joga na piscina gelada – é ruim e até chega a doer na pele, mas você se esforça pra pensar que tá bom aquilo. Não só fiz a dieta, mas também entrei em grupos de ajuda pela internet, me informei, li, corri atrás, paguei médicos caros pra me ajudar, revi meus hábitos, meus conceitos, me refiz ali. Fui tão forte e tão fraca. Nunca tinha me sentido tão importante pra alguém e, ao mesmo tempo, tão sozinha.
Assim foi até Lucas completar 6 meses – 6 de aleitamento exclusivo! – começar suas papinhas, entrar na creche e tomar mamadeira – de leite ordenhado da mamãe! – e eu voltar a trabalhar. Já estava até voltando a consumir leite de vaca e derivados, aos poucos, tudo estava mais leve e feliz.
Até que, não sei o que aconteceu primeiro, mas aconteceu: ele não queria mais mamar. E eu notei que estava com pouquíssimo leite. Que pesadelo aquilo. Chorei e chorei como se alguém tivesse morrido. Juro. Tive que dar mamadeira – sorte que era meu leite, eu tinha litros e mais litros congelados. Com ajuda de muitas queridas (Pat e Perola Boudakian, Paloma, Lia), novamente tive que enxugar as lágrimas e levantar a cabeça: meu esforço não iria por água abaixo justo naquele momento, o baby com 7 meses! NÃO. E NÃO.
Contra muitas opiniões, botei na minha cabeça que bebês de 7 meses em sã consciência não desmamam coisíssima nenhuma. E bolei o mais louco plano:
· Beber 4 litros de água por dia
· Oferecer os dois seios atééé não ter mais nada, mesmo com Lucas gritando, me batendo, dando escândalo
· Dar mamadeira depois disso só se ele seguir gritando e a chupeta (olha ela aí!) não resolver (mas ela resolveu a maioria!)
· Ordenhar depois das mamadas (todas, madrugada inclusive) pra estimular ainda mais
· Ordenhar a cada 3 horas quando tiver separada do Lucas (no trabalho, no caso)
· Dormir com ele pra estimular o contato pele-a-pele (lembram do que as enfermeiras no hospital falavam?)
· Tomar banho de água quentinha e deixar cair nos seios. Nessa hora, eu rezava, chorava, sei lá, tentava me conectar com meus sentimentos e meu mais profundo desejo de seguir amamentando.
· Tomar levedura de cerveja (tentei plasil, mas não adiantou nada e ainda me deixou com muito sono)
Foi uma semana assim, depois outra semana sem as ordenhas na madrugada. O leite voltou, o interesse do bebê também. YEAAAAAHHH! Eu agradecia por cada mamada que conseguia dar e voltava a vislumbrar o objetivo de amamentar por, pelo menos, um ano.
O que não esperava era que essa seca se repetiria. Sempre que ele ficava doente e perdia o interesse no peito ou eu tinha muito trabalho e pulava alguma ordenha ou ainda se bebesse pouca água. Então que eu tive que repetir esse esquemão doido aí de cima pelo menos umas 3 vezes mais.
Só que na última vez, quando ele já tinha quase 10 meses, não estava mais dando certo. Eu estava cansada demais, o pensamento do desmame estava voltando. Aí vinha uma mamada e eu me apaixonava de novo. Aí voltava ao desmame quando ordenhava e só saiam 50ml.
Então tomei a decisão: tomar remédio. Não vou dizer o nome dele porque não quero estimular automedicação, mas qualquer Google te responde isso em 3 segundos. E bem, tomei e o leite voltou fantasticamente, só que, se eu ficar sem ordenhar durante o dia ou sem beber muita água, não há remédio que salve. Então o esquema foi remédio + ordenha + litros de água.
Daí chegamos – finalmente, Carolina! – ao que é hoje em dia: estou saindo do remédio (não pode parar de uma hora pra outra, tem que ser aos poucos), amamentando muito (Lucas está numas de mamar iNgual RN), ordenhando duas vezes por dia no horário de trabalho e, como sempre, mergulhada em litros e mais litros de água.
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| mamando com um ano |
Penso na nossa história de amamentação e acho impossível não me indagar: tem que ser difícil pra ter mais valor? Será que eu adoro porque é um desafio?
E eu mesma concluo que: NÃO. O maravilhoso de amamentar passa longe dessas dificuldades todas que tive. É incrível o contato, a conexão, a minha sensação de estar ligada a algo superior e divino e natural e transcendental, sabe? Me sinto mãe, mulher, a que nutre, quem constrói, quem alimenta. Amamentar é poder, pra mim.
Teria ou seria menos poder se parasse? NÃO. Mas atualmente é assim que me sei como mãe. E tenho certeza que é assim que Lucas se sabe como filho. Quando acabar, a gente vai encontrar outras formas, eu sei que vai.
Mas, por enquanto, é com esse leite que materializa nosso amor que vamos seguir.