Os armários da minha casa são embutidos e as portas são espelhadas (inclusive foi nelas que fiz todas as fotos da gravidez).

Outro dia, eu estava sentada no chão do quarto do Lucas e ele veio pedir pra mamar. Levantei a blusa, ele sentou no meu colo e ali ficou. Olhei pro grande espelho do armário e nos vi. Eu vi bem. E vi o meu filho. Grande, corpo de menino, já nem cabe mais deitado no meu colo. Mama sentado e eu nem tinha percebido, ele só mama assim porque nem há outra opção. Seus braços me envolvem, suas pernas sobram, seu peso é tão grande que preciso de apoio nos braços pois já não consigo sustentá-lo durante toda a mamada. Ele larga o seio e fala alguma coisa e sorri e volta a abocanhar. Escorre um pouco de leite no queixo dele e eu fico me lembrando de quando ele era bem pequenino e sempre escorria leite e ele tinha bafinho de recém-nascido. Faz tanto tempo já.

E foi assim, num dia qualquer olhando pro espelho, que vi que meu filho cresceu.

Embora ainda mantenha muitas coisas de bebê – a chupeta, as fraldas, a comida que ainda insisto em dar na boca –, suas qualidades de menino são mais presentes e dominantes. Já anda determinado, não dorme mais no berço, corre, brinca, pula, fala (bem do jeito dele, mas fala), “lê” livros pra gente, brinca de massinha, escreve com giz de cera. Tem suas vontades, suas pequenas lutas, suas frustrações, suas preferências. E tem uma mãe que observa bem de perto tudo isso e, às vezes, demora um tantinho pra assimilar.

Nesses dias, eu me pego assim. Com uma saudade do que já foi. Com uma ansiedade de viver o agora porque eu sei que o agora é tão rápido que, opa, já passou. Mas também com uma serenidade estranha, uma certeza de que as coisas tão indo bem, num caminho legal, no tempo certo.

Foram fortalezas que eu construí. A respeito de ser mãe, sabe. Que eu só alcancei quando finalmente parei. De ler livros, teorias ou de me comparar com outras (ou meu filho com outros filhos). Parei e olhei pra dentro e foi tão bom.

Parei e olhei pra esse menininho lindo que é meu filho e me deixei levar. E, finalmente, depois de mais um ano nessa função materna, me entreguei completamente.

(continua)

17 respostas em “Espelhos

  1. eu AMO te ler.
    me identifico em muitas coisas (exceto na amamentação). Eu também aprendi muito depois que parei de comparar e comecei a viver aqui em casa; nossa rotina, nossa vida.
    TODAS as outras crianças da idade do Alexandre já não mamam a noite, ele quer 2 mamadeiras por noite; todas as outras já andam, Alexandre não; todas as outras têm a boca cheia de dentes, e Alexandre não.
    Mas aprendi, tudo tem seu tempo, tudo na hora certa.

    Parabéns pelo filho lindo, parabéns (pra sogra) pelo carangueijo lindinho! E parabéns (e obrigada) por partilhar toda sua experiencia com outras mães malucas como eu.

  2. é bem isso, Carol…. eles crescem tão rápido, de forma tão avassaladora, que, se olharmos de relance, nem percebemos o quanto cresceram. Precisamos parar, observar, olhar de novo e olhar bem atentamente para vermos aquelas pequenas frações de segundos que separam o passado do presente, que separam o bebê da criança, que separam mãe e filho.

    São nesses segundos imperceptíveis que eles aprendem a falar, a andar, que eles têm dentes, que se desenvolvem, que aprendem a pintar, a subir e descer, que aprendem que a altura é desafiadora e que pode machucar. Que aprendem a ser gente, a ser criança e deixam, a cada segundo que passa, mais parte da sua porção bebê para trás. E a cada novo dia, uma nova criança renasce.

    Adooooorooooo….

    Quero muitos mais…..

    =)

    Beijos!

  3. Carol, seu texto foi um conforto pra mim… Falta pouco mais de um mês pra Ester fazer um ano, e eu também me pego com saudades daquele pacotinho que cabia todo em meu colo!
    Crescem rápido demais pro coração de mãe, né?

  4. Olá, Carol!
    Conheci seu blog há algumas semanas e adorei. Quis ler todos os posts antes de comentar e… caramba, você já escreveu muito, hein?! Rsrs
    “Devorei” tudo, desde o comecinho, e me identifiquei muito com alguns capítulos da sua trajetória.
    Em especial a sua “batalha” para trabalhar fora e seguir amamentando, que é a situação em que me encontro agora.
    Parabéns pelo seu esforço, os resultados estão aí: um meninão lindo e cheio de saúde que segue firme e forte mamando!
    Posso abusar de sua boa vontade e pedir um conselho? “To precisada” de conversar com quem já passou por isso e vai me por pra cima, e não o contrário…
    Tenho uma filha de 8 meses, a Olívia, e há um mês voltei a trabalhar. Faço a ordenha 1 vez ao dia no escritório e tomo remédio pra aumentar o leite desde que ela tinha 2 meses, já que minha produção nunca foi lá essas coisas.
    Agora comecei a diminuir a dose do remédio e senti que meu leite diminuiu… Resultado: chororô pra dormir a noite, ontem só dormiu depois de uma mamadeira…
    Li em um post seu que vc também tomou remédio pra aumentar a produção. Vc ainda toma? Se não, como foi o processo de parar com ele?
    No mais, li todas as suas dicas para manter a produção e estou pondo em prática! Valeu demais!
    Beijos e parabéns pelos seus dois filhos que vc cria com tanto carinho, o Baby-Lucas e o Baby-bobeiras.
    Marília Mader
    PS > Sua filosofia de “escrever para não deixar esquecer” me inspirou, to pensando seriamente em montar um blog também!

  5. E é justamente quando a gente olha pra dentro que percebe que toda (ou a maior parte) da força de que precisamos está bem dentro da gente.Força pra impor nossas convicções, pra assumir os erros, pra mudar de ideia, pra ter certeza de que está fazendo o melhor que pode (o que não é pouco!), enfim, força pra seguir em frente e apreciar a beleza que é criar um ser humano.

    Te leio há tempo, mas sou dessas que prefere mais observar que participar. Mas hoje não resisti… Posso dizer que você consegue colocar em palavras muito do que se passa comigo, minhas alegrias, dúvidas, dores, certezas e contradições. Tenho uma pequena de 1 ano e meio, e parte da minha loucura de mãe (pq sim, toda mãe é meio doida…rs) é fantasiar nossos filhos como colegas, correndo por aí, aprontando todas, tamanha é a afinidade que sinto pelas suas palavras e vivências…
    Obrigada, e parabéns!
    Um abraço,
    Julia Abrantes

  6. A gente cresce como mãe , aprende, desaprende e segue amando, acertando, errando, mas sempre com o unico objeto : que eles sejam saudaveis, lindos, cheirosos, gostosos e felizes é na verdade atraz disso que estamos diariamente, ai eles crescem mais e vemos que são perfeitos apenas aos nossos olhos, que temos muitas coisinhas pra "tentar" moldar, algumas conseguimos e outras nos culpamos achando que falhamos em algo "sempre nossa culpa", mas amamos mais, cada dia mais e no final dependendo do angulo ao qual nos olhamos temos a certeza que estamos no caminho certo!!! beijo Carol, não nos deixe muito tempo sem seus textos sensacionais ele me fazem refletir um TanTão.

    Natalia Vianna.

  7. Que lindo seu post, Carol!
    Ainda não sei o que é ser mãe, mas tenho certeza que encontrarei muita inspiração neste e em muitos outros que já li por aqui. Porque, na minha parca experiência, este papel se resume a isso: SER! Da melhor maneira que podemos.
    Parabéns!

  8. Como sempre: Arrasou no post!!É essa mesma a sensação, de repente descobrimos que cresceram…parece que quando vem o segundo, é mais rápido ainda…Como agora são duas para acompanhar, as vezes me sinto um pouco perdida e eachando que está passando rápido demais!!
    Beijão e aproveite muito seu gostoso!!!

  9. Carol!!!!!! Que post maravilhoso! Amei amei amei. Mas tenho que dizer que não concordo com algo que vc colocou na ultima frase, do ultimo parágrafo, pois eu sempre li seu blog e vou te corrigir: tenho certeza absoluta que vc sempre se entregou completamente, desde quando ele estava ali bem pequenininho dentro da sua barriga!! Parebens por ser essa mãe linda!

  10. Ownnn q lindooo! essa parte de largarem o seio, sorrir e voltar a mamar, nossa e magico! aliàs, o olhar tao puro de nossos filhos..ahh me emociono sò de falar!
    tô doida pra ler a segunda parte!!!
    bjs

    Lu y Rafaella
    Uruguay.

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