(continuando...)
VOU.
Respondi sem pestanejar, sem pensar, ligando o foda-se completo pra toda a leitura feita e toda segurança de que eu iria em frente sem medicação. Maridón tentou argumentar comigo, tentou me lembrar do sonho da coisa rolar naturalmente, dos mil argumentos que eu tinha, das mil leituras que eu fiz. E eu nem conseguia responder nada pra ele, tamanha era a dor, tamanha era a minha incapacidade de falar ou desenvolver qualquer raciocínio.
Mas, embora sem raciocionar direito, eu estava tranquila. Fiz o que tinha me proposto a fazer: tentar, testar meu limite. Ainda não tinha chegado no limite em si, mas já estava cansada e imaginava que esse cansaço só ia piorar e a anestesia poderia me dar o descanso que eu estava precisando pra seguir em frente. Lógico que morri de medo de uma intervenção levar à outra, tive medo do TP parar de progredir, do coração do bebê diminuir o ritmo, blá-blá-blá-whiskas sachê, então o que fiz foi começar a rezar e pedir a Deus que me permitisse o parto normal mesmo com anestesia. Durante essa reza doidja, a dor veio tão forte que eu vomitei.
Uma hora depois da minha autorização (e muitas contrações PEGADAS DICUM FORÇA), me levaram pra sala de parto em si (eu tava numa de pré-parto até então) e chegou o anjo dourado da minha salvação: a anestesista. Eu tomei uma epidural que tinha um cateter que controlava o nível analgésico, se doía um pouco mais forte, a médica podia aumentar a medicação; se eu parasse de sentir as contrações, ela diminuía pra eu não perder as sensações. A doutora simpática me explicou o que ia acontecer (essa história do catater e como me daria a medicação), mas dentro dessa explicação vieram duas fortes contrações e eu não queria que ela falasse mais nada “injeta essa porra no meu olho, doutora, tudo certo”. Mas obviamente a “injeção” foi na coluna, eu tive que ficar com as costas curvadas e nisso veio outra contração e eu agarrei nos braços da parteira (sei lá como essa mulher ainda tem braços). Nesse meio tempo, tinham pedido pro Maridón sair da sala. Anestesia dada, ele voltou. E viu a seguinte cena: a parturiente que há um minuto atrás tava cheia do palavrão no vocabulário e ódio no coração tinha virado uma pessoa serena. Pacata. Tranquila. Amena. De bem com a vida.
Essa era eu. Santa Anestesia Argentina Brilhante.
Eu fiquei com cara de bebum, rindo tudo, vendo a barriga ficar dura “olha, uma contração, ha-ha-ha”.
Me colocaram um cinto pra acompanhar a frequência cardíaca do bebê e as contrações. Uns minutinhos depois, eu comecei a sentir minhas pernas formigarem. E o coração do bebê diminuir o ritmo. Fiquei super preocupada de me mandarem pra cesárea, de inventarem outras intervenções. Mas, só fizeram mais um toque (acho que eu tava com 6 ou 7 de dilatação nessa hora), me mudaram de posição e me deram uma máscara com oxigênio pra eu ficar respirando. Eu tinha que ficar de ladinho na cama, segurando a tal máscara. Lembro que a parteira, em algum momento, botou a mão lááá dentro e mudou o bebê de lugar, pra ajudar na coisa dos batimentos. E eu nem senti, he-he.
Depois disso, o coração do baby voltou ao normal e eu fiquei ali respirando na minha máscara, Maridón fazendo carinho nos meus cabelos. Até que começou um papo chatésemo de comparar Argentina com Brasil, de comentar a nossa estrangeirice, essas coisas que escutamos todo santo dia desde que viemos morar aqui. BORING.
Sabe o que eu fiz, do alto dos meus 6, quase 7 centímetros de dilatação? No meio da EMOSSAUM do meu trabalho de parto? DORMI.
Assim de simples, tranquilo e despreocupado. Mas eu dormi mesmo, de babar. E acordei, acho que uns 40 minutos depois, sentindo uma pressão estranha. A parteira veio fazer outro toque e... “pode começar a empurrar!”.
“HEIN?! Que choque de realidade foi esse?! Como assim EMPURRAR? Meu bebê vai nascer agora, com você me olhando com essa cara plácida? Eu já tenho 10 centímetros de dilatação?”. “Sim, 10 centímetros!”
Fiz o que ela mandou e comecei a empurrar, totalmente sem técnica, sem saber o que tava fazendo. A pressão foi aumentando e eu comecei a sentir dor. Sim, dor. Mesmo anestesiada. Até que a coisa ficou braba de novo, de como estava antes da anestesia, a pressão era muito forte, eu sentia muita vontade de fazer cocô (perdão pela força do detalhe, mas a sensação é essa, ué!), achei que ia me rasgar pela metade. Acho que as contrações estavam vindo quase sem parar, eu não conseguia mais respirar direito.
De repente, a sala se transformou: as luzes foram apagadas, surgiram aparatos cirúrgicos, roupas brancas, minha GO finalmente chegou (viu como ela só chega no final?!), chegou também uma neonatóloga, todo mundo posicionado em volta de mim. A própria cama em que eu estava mudou, surgiram barras de apoio e a parte debaixo se abriu, pra médica sentar bem na frente do “acontecimento”.
Essa parte da história ainda é muito confusa pra mim, eu fiquei ansiosíssima, Maridón também. Sentimos que o momento mais esperado de todos estava muito perto. Mas, ao mesmo tempo, eu estava com muita dor e muita pressão, comecei a pedir cesárea (aloka), pedi pra parirem por mim (aloka 2), pedi pra me tirarem dali (aloka 3), pra tirarem o Lucas de dentro de mim (aloka 4). Minha médica riu e falou que esse trabalho era meu.
Ela desfez alguma coisa do meu colo do útero que estava impedindo a passagem do baby e, putz, aí foi trevas. Eu comecei a gritar de dor. De medo. De morte. De vida. Não sei. Todos me encorajavam pois, parece que, depois que ela mexeu lá dentro, o bebê finalmente entrou no canal de parto. Já se via a cabeça do bebê e chamaram o Maridón pra olhar. Me perguntaram se eu queria ver no espelho. Gentilmente recusamos: “quero meu filho aqui fora!”. E gritei mais um pouco.
O mundo ficou fora de foco, as vozes todas se misturaram. Consegui pescar alguém falando pra eu fazer a maior força da minha vida.
Foi fazendo a maior força da minha vida que vi que a maior força de todas já estava ali.
Meu filho. Nasceu.
Paro pra pensar nesse momento. Nesse momentinho tão único que foi vê-lo, senti-lo, cheirá-lo, ouvi-lo pela primeira vez. Acho que ali eu morri e eu vivi. Me despedi completamente do que conhecia e me joguei no novo.
(continua, mas só tem mais uma parte, prometo!)
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