No dia 15 de janeiro, eu tinha visto uma movimentação muito legal na blogosfera. Várias mommys que moram fora do Brasil postaram juntas sobre como é o pré-natal nos países que estão atualmente. Logo depois, fui convidada pra participar pela Dani, do blog
Mamães na Itália e amei o convite, topei na hora. Na verdade, a blogagem não é só sobre pré-natal, a idéia é falar dos mais variados temas da maternidade e como é viver isso ao redor do mundo e, óbvio, de acordo com as nossas experiências e pontos de vista.
Mas, como procrastinação é meu nome do meio, acabei me atrasando
vergonhosamente um pouco pra publicar o meu primeiro relato.
Vou organizar um pouco a minha própria zona e me apresentar, do começo pra quem tá chegando agora: meu nome é Carolina (duh), tenho 27 verões acumulados nessa vida, sou brasileira, carioca e casada com um
brasileiro igualmente carioca (brancão da cor do pecado que nem eu, mas abafa essa informação). Estamos juntos há quase nove anos e moramos na Argentina há dois anos e meio. Viemos por uma proposta de trabalho que recebi, tínhamos o sonho de morar fora e foi uma oportunidade de realizá-lo.
Gostamos muito de viver aqui e chegamos à conclusão de que era um lugar ótimo pra ter nosso primeiro rebentinho. Pois bem. Engravidei da primeira vez e a gestação não foi pra frente, o que me rendeu um
relato magoadíssimo com relação ao sistema de saúde daqui. Fiquei muito triste e perdida, me senti desamparada e quis loucamente voltar pro Brasil, achando que lá sim é que o sistema de saúde seria a “mãe” que eu precisei nesse período ruim de aborto.
Mas, pra minha sorte e felicidade, um mês depois do ocorrido, engravidei de novo e, apesar de tido vários problemas (hematoma, brida no saco gestacional, várias idas ao hospital), só tive experiências boas com relação ao sistema de saúde. Claro que escutei informações desencontradas (e quem nesse mundo não escuta?) e fui atendida por profissionais ruins em alguns lugares, mas tive um ponto positivo que foi chave: encontrei uma médica em quem confio, que me tranqüiliza e me passa a melhor das impressões, sempre.
Como ainda estou com apenas 5 meses de gravidez (completando hoje, olha que bunito!), ainda não vivi a coisa do parto (que, pra mim, define muito como é a filosofia médica do lugar). Mas, já pesquisei bastante e aí está o que concluí:
O sistema de saúde aqui na Argentina (e falo mais de Buenos Aires, porque no resto da Argentina tem diferenças muito gritantes) é muito parecido com o do Brasil: se você tem sorte de trabalhar num lugar legal, ou dinheiro pra gastar num plano de saúde, muito bem, é atendido por plano. Senão, fica na mão do serviço público, que é sucateado e incerto.
Como já contei, eu vim por trabalho e obviamente um dos benefícios era plano de saúde. Como estou num cargo de chefia, meu plano é do tipo Gold, ou seja, é o melhor que o plano tem a oferecer. Mas o serviço em si não é lá essas cocas-colas não, então to no mesmo nível que qualquer gravidinha argentina de classe-média, que tem direito a: consultas periódicas com o obstetra (geralmente a cada 3 ou 4 semanas), cobertura para análises comuns e ultras prescritos pelo médico (o que não incluiu a translucência nucal nem a morfológica de 20 semanas – tive que pagar a parte por esses exames. A justificativa do plano é que eles cobrem somente pro “grupo de risco”, mulheres grávidas acima de 35 anos ou com histórico familiar – não é o meu caso), atendimento de urgência no hospital ou em casa (caso eu queria, posso pedir que venha uma ambulância na minha residença), internações em suíte individual, parto no melhor hospital possível, que tem o melhor centro de neonatologia do país.
Além disso, existe um sistema chamado
Plan Materno-Infantil, que obriga todos os planos de saúde a cobrir os gastos de farmácia da gestante e do bebê até que ele complete seu primeiro ano de vida. Traduzindo: ácido fólico, vitaminas pré-natais, Luftal (não me zoem,
eu já precisei) e todo e qualquer remédio que eu compre com receita da minha médica (até creme pra estria, meu povo), sai DIGRÁTIS. E pro baby, o mesmo acontece: remedinhos, leite artificial (receitado pelo pediatra, atentem pra isso) e demais compritchas na farmácia (pode blush e batom, doutor?) também são gratuitos.
Sobre humanização nos atendimentos e parto: é um assunto que vem crescendo aqui, mas não com a mesma força que vejo acontecendo no Brasil. Talvez por uma coisa óbvia de que parto normal ainda é, de fato, o normal. Cesáreas acontecem e são maioria (nos atendimentos particulares), mas não ainda em níveis tão alarmantes. E é aquilo que eu já tinha comentado
aqui: parto normal é parto normal hospitalar, com intervenções (episiotomia, soro com ocitocina pra ajudar nas contrações, gestante sentada de barriga pra cima – e não escolhendo a posição que prefere –, médico mandando fazer força na hora “certa” e anestesia).
O ponto que me atrai e me faz feliz disso tudo é a presença da parteira (que também comentei
aqui). Ela faz parte da equipe do médico, ela é a primeira a ser acionada quando as contrações começam (ou quando a bolsa rompe), só leva a gestante pro hospital num momento mais avançado do trabalho de parto, trata de burocracias de internação e cuida pra ajudar e orientar a família ao longo do processo. Acho que isso tudo é fundamental pra todos os envolvidos (mãe, pai, médico, bebê) ficarem calminhos e agirem da melhor forma. Sendo assim, “complicações” que acontecem por aí acabam não rolando aqui: não tem ninguém over-neurótico pra acabar logo com o que tá acontecendo.
Mas, claro: tem médicos que mandam fazer cesárea por qualquer coisa, o repasse dos planos de saúde é uma vergonha (o que faz com que alguns médicos prefiram mesmo acompanhar 5 cesáreas numa sexta de manhã que ser acordados no meio da madrugada da véspera do feriado pra fazer um parto com uma louca gritando no hospital), rola uma moda de se maquiar e ficar bonita pra foto durante uma cesárea ”mais segura e indolor”, muitas mulheres acabam preferindo essa conveniência e tudo mais que vocês já sabem pela realidade no Brasil.
O hospital onde terei o Lucas, por exemplo, anda numa linha tênue entre a humanização e a “besteiralização”: não tem sala de parto humanizado com banheira e bola de pilates, mas eles incentivam contato total entre mamãe-bebê (berçário só se a mãe pedir, se não, o baby fica no colo/quarto dela desde que nasce, o tempo todo. Se tiver icterícia, por exemplo, os banhos de luz são feitos dentro da suíte de mãe, no colo dela). É incentivada a presença do pai e da parteira em todos os momentos, mas tem serviço de manicure e cabeleireiro pra mãe e enfermeiras especializadas pra furar a orelhinha, caso for menina. Não se dá complementos (água glicosada ou leite artificial) pro bebê sem expressa autorização do médico e concordância da mãe. Mas também não dão café da manhã pro pai se ele não pagar por fora.
Enfim. A coisa tá caminhando, mas ainda meio tortinha, entendem?
Nada disso me incomoda, pra falar a verdade. Eu curto o hospital ter serviços bestas (ah, por que não posso me arrumar pra tirar fotos depois do parto? Que mal tem dar uma secada nas cabelas e passar um rímel dramático nas pestanas?) e também acho o máximo saber que tudo que meu filho vai viver nos seus primeiros momentos será do meu prévio conhecimento e autorização. Ou seja, tá bom de humanização pra mim, sabe. E mais: tive complicações ao longo dessa gravidez que sugeriram (e ainda sugerem) que eu venha a ter que fazer uma cesárea. Cada vez que essa possibilidade vem à tona (e nunca pela boca da minha médica, porque por ela o parto normal é primordial e possível, SEMPRE), eu pesquiso, me informo e repenso minhas decisões. Minha escolha número 1 (e acredito que a de qualquer outra mãe) é trazer meu filho ao mundo com segurança, amor, carinho e respeito. Tudo que incluir isso – inclusive uma cesárea agendada pela possibilidade de um cordão umbilical prolapsado, coisa que vivo atualmente – está ótimo pra mim.
Ufa gente, era isso! Espero que tenham gostado! Se tiver alguma leitora da Argentina (Oi
Neda! Grita aí nos comentários pra gente!), ficarei feliz se puder contribuir e trocar experiências.
Pra ler mais histórias de pré-natal ao redor do mundo, visitem:
Espanha:
O Astronauta
Irlanda:
Que seja doce
Italia:
Mix dos 30
Italia:
Mamaes na Italia
Inglaterra:
Mother Love Database
Monaco:
Na casa da Beta
New York:
Ny with kids
Suécia:
Minha aquarela
França:
Journal de Beatrice
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