ou O Retorno ao trabalho

Deixei meu filho na creche e fui trabalhar. Pela primeira vez desde que ele existe, desde que eu existo como eu sou hoje, desde que o mundo começou a fazer sentido. Ele foi pro colo da cuidadora e se distraiu, eu dei tchau e voltei pro carro com um nó na garganta. Chorei. Não muito; eu não estava triste. Foi porque foi um rito de passagem, foi como crescer. E crescer, às vezes dói.

Passei o dia feliz e ansiosa pra vê-lo de novo. Quando nos reencontramos, eu me sentia uma adolescente apaixonada: o coração batia forte, me tremia inteira, não sabia como agir e tinha medo pela reação dele. Mas ele sorriu. Olhou bem fundo nos meus olhos e sorriu, como só ele sabe fazer, como ele faz só pra mim – “ufa, ele me ama”. “Eu te amo também, filho. E sempre voltarei. Não importa de onde, eu sempre virei te buscar”.

E assim os dias passaram e não teve mais choro no carro e teve muito mais sorriso no reencontro. E muitos eu te amos. E muitos dias felizes. Cansativos AS HELL, mas felizes.

Daí que o bebê passou a mamar melhor, dormir melhor, sorrir mais. E a mãe se sente produtiva, adora trabalhar, aproveita todos os minutinhos do dia e ama muito tudo isso. Um é o reflexo do outro, com certeza.

***

Assim foi meu retorno ao trabalho. Nada traumático, nada culpado.

***

Foi tão culpa-less que fiquei me sentindo culpada por não sentir culpa (oi?). Todo mundo falando que a volta ao trabalho é o pior dia da vida, que levaram séculos pra se estruturar, que choraram escondidas… Eu não. Eu achei ótimo.

Morro de saudades do baby, tenho a impressão que seria per-fei-to se puedesse trabalhar menos horas, mas tenho certeza que sou uma mãe muito melhor quando há espaço pra eu ser outras coisas. Em casa o tempo todo, eu não conseguia. Tem gente que consegue, mas eu não. E pronto.

E aí tá o ponto-chave, aí está o que eu tenho entalado na garganta desde que acabou a licença. EU SOU UMA MÃE FODA. Pronto, falei. E é verdade, ué.

Eu pari, eu amamentei, eu cuidei, jamais deleguei, me dei ao trabalho de conhecê-lo, de entretê-lo, de entende-lo, de educa-lo. Abracei, beijei, dormi junto, não dormi junto, não dormi. Fiz livre demanda, não fiz. Fiz muitas planilhas, estudei, li mil livros, mil blogs, mil publicações com ou sem relevância. Eu encarei uma dieta braba por ele, fui a mil médicos, gastei dinheiro que não tinha, tirei mais tempo de licença do que me pagaram pra tirar. Mudei minha vida, minhas ideologias, minhas amizades, meu corpo, meu casamento, meu tudo. Fiz tudo que tinha pra fazer e um pouco mais, sempre mais.

E tenho certeza que quem me lê e é mãe, fez também. Porque isso é ser mãe. Ser mãe é originalmente ser foda. Não é pra qualquer um e somos vencedoras. Cada uma com seu jeito, com seu limite, com a sua verdade, com seu trabalho, dentro ou fora de casa. Mas todas com um grande amor em comum.

***

Dito isso gente, eu fiquei pensando esse tempo todo antes de escrever o post, desde que acabou a licença. Que chega o dia que temos que nos livrar. Das opressões, das cobranças, das culpas. Permita-se. Veja. Admita. Que você é incrível, poderosa e NINGUÉM faz melhor que você. Ninguém é melhor pro seu filho do que você. O blog da amiga, o livro famoso, o pediatra sabidão. No final, o filho é teu e o instinto é uma voz que só você é capaz de ouvir.

Então ouça: você está certa e está no melhor caminho. Assim é que se faz.

***

E eu, como Mãe, Foda e Certa (três incríveis divindades que nunca são reconhecidas em sua totalidade pelo marido, hohoho), to muito feliz. E Luquinhas também.

52 respostas em “E a banda diz: assim é que se faz

  1. Que texto FODA, Carol! Muito bom!
    Sabe, minha primeira volta ao trabalho, se por um lado me angustiou um pouco, por outro me libertou porque na época eu queria me sentir produtiva fora de casa. Foi depois que eu fui sentindo a necessidade de curtir mais, de passar mais horas junto a ela, principalmente quando mudei de cidade e de emprego e passei a trabalhar mais horas por dia, longe de casa. Aí vi que estava perdendo muito. Mas enquanto eu tinha meu horário (auto)flexibilizado e trabalhava perto de casa, eu não sofria tanto assim.
    A gente tem de ser, acima de tudo, sinceras com a gente mesma.
    Eu não acho que toda mãe seja foda não, mas acho que vc é!
    Beijos

  2. Adorei… !!!
    Tbm não acho q todas as mães sejam foda.. e acho q tem gente que não me acha lá grandes coisas assim… hehe e
    Mas seu texto me fez sentir muito foda e dar um foda-se para muitas coisas!!! hehehe
    Bjnhos

  3. É verdade. Ser mãe é ser FODA!
    Muitas vezes é super difícil e principalmente no início tem dias que dá vontade de sumir, que a gente se acha uma mãe de merda. Mas tudo é muito recompensador e vale a pena cada segundo.
    Adorei seu post! Sempre muito bem escrito, criativo, divertido.
    Beijos

  4. Olá Carol!!!!
    Acompanho seu blog desde o dia que Lucas nasceu.. Nunca comentei, não por falta de vontade, mas pq nunca achei a necessidade, mas hj eu posso falar, você é FODA mesmo. Você é mãezona, esposa, divertida e mais um monte de qualidade que poderia colocar pelo pouco que dá para conhecer alguém por um blog. Já fiquei puta, triste, feliz por vários posts seus. Quando falou dos probleminhas com seus cachorros então, quis pular no seu pescoço(rsrsr), mas depois entendi e passou. Você merece o melhor, junto com sua família. Lucas é lindoooo e deve ser super feliz de ter a mãe que tem. Parabéns por tudo isso, quando eu for mãe, vou te usar como um bom exemplo. Beijo grande.
    Marina

  5. eu tava ansiosa por esse post. faltam 3 meses para eu voltar a trabalhar. serão 12 horas diárias longe do filhote. sorte que ele vai ficar com a vó maravilhosa e de noite com o paizão dele. vivo esse dilema todos os dias. amo o que faço, mas trabalho do outro lado da cidade e o ritmo é bem pesado. recebi uma proposta para trabalhar perto de casa, ganhar um pouco mais e bem menos, mas em algo que não gosto. acho que não vou aceitar, embora me pareça tentador. será que fiz a escolha certa? só vivendo para descobrir. mas nesses 3 meses e meio posso afirmar: sou do time das FODONAS.

  6. Que bom que tudo está dando tão certo, obaaa!

    De vez em quando é tão bom pensar assim sem as culpas, que são inerentes da maternidade, uma aqui outra acolá. Ontem a health visitor veio aqui em casa ver a Bebella e me disse: "eu não tenho nada pra te acrescentar, vc está fazendo um trabalho perfeito como mãe" Foi um belo afago na moral materna, hehe.

    E vc tb está fazendo tudo certo, Carol, te admiro.

    Bjos

    PS: Esse frio na barriga adolescente pura ansiedade "cadê o MEU amor?" na hora de buscar na creche não acaba nunca. Até hoje eu sinto, todo santo dia. 🙂

  7. Oi Carol, sempre passo por aqui mais acho que nunca comentei. Seu texto foi o mais incrível que li nos últimos tempos!
    É exatamente assim que me sinto também. Querendo trabalhar menos para ficar mais com as pequenas. Não consigo ficar em casa, só em casa, mas aindo me culpo por isso Ser mãe é ter este sentimento para sempre. O de sempre achar que não fez o bastante!

    Parabéns!

  8. Áh Carol, que lindo!!!!

    Você é foda mesmo, eu sou foda e todas nós somos fodas!!

    Aliás, a gente pode começar uma campanha nos blgos, postando textos de como somos fodas, só pra ver se a nossa sogra lê, quem sabe o marido tbm… =)

    Você está certíssima e, assim como você, hoje eu adoro vir pro trabalho, falar sobre outras coisas, pensar em outras coisas e me distrair. Não gostei no início, como já te disse, foi beeeem sofrido. Mas depois que o sofrimento passa, fica a sensação…. DE QUE EU SOU FODA!!!!

    É isso aí!!!!

    Amei, amei, amei!!!

    Excellent news!

    Beijas!

  9. Esquecem de nos dizer que depois que a gente tem um filho a gente tbm fica FODA PRA CARAI!
    A gente vira bicho,vira mais gente,a gente se vira!
    Carol vc é com certeza foda e as suas escolhas tbm são,e elas são suas escolhas e isso as fazem serem as mais fodásticas do mundo!
    Beijos
    Kaka

  10. Carol, é isso mesmo!! Na realidade, eu acho que só o fato de tomarmos a decisão de gerar um filho já nos faz ser muito foda!! Afinal de contas, emprestamos nosso corpo para a criança usar e abusar durante tanto tempo! Não é para qualquer uma.
    Parabéns por mostrar que ser mãe é maravilhoso, mas que ser mulher e mãe é ainda melhor!! bjs Tati

  11. Antes da minha filha nascer, achava que seria capaz de ficar 1 ano sem trabalhar, só cuidando dela. Mas no quarto mês de licença vi que ficaria louca se fosse só mãe. Eu precisava ter um pouco da minha vida (individual) de volta. E a minha volta ao trabalho foi bem tranquila. Chorei só no primeiro dia e às 18hs me dava aquela agonia e eu voltava correndo pra casa. Com o segundo filho foi igual. Eu fui como vc. Me dediquei, li mil livros, não deixava ninguém se meter no que eu achava certo e fazia do meu jeito. Só tenho babá porque trabalho e eles quando pequenos ficavam em casa. Agora tenho a mais velha na creche e o pequeno (8 meses) em casa. Acho que sou uma mãe melhor não estando presente 100% do tempo. Pelo que vejo, as mães que não trabalham tem menos paciência. Enfim… cada um é de um jeito. Eu sou como vc. Beijos

  12. Oi….eu também passei por isso….no começo um nó na garganta…mas meu trabalho, a agitação do colégio não me fizeram sentir tanta a falta…..passa muito rápido….não tinha tempo de sentir essa ausência….porém quando eu fiz a adaptação do Theo e fiquei em casa eu quase pirei….chorei muito…..foram 15 dias de sofrimento(o meu é claro) ele abre um sorriso lindo quando chega no berçario…..

  13. Carol, é isso mesmo Amiga (Sobre o post anterior), mas se está com medo dele te trocar pela "plasticuda", será que não é uma boa oferecer o leitinho na creche em um copinho??? Sei -la , só uma sugestão.
    Nessa fase eles se dispersam muiiiito mesmo, o menor barulhinho, faz eles tirarem a atenção da mamada e nos fazer esperar até que o barulhinho tenha sumido, e aja tempo e paciência para isso né !!!! E Sobre a sua mini draga …. Amiga… se prepare… fique sócia de alguma panificadora quando ele for maior, Bruno, meu filho de 11 anos, já calça 37 e se deixar come 6, eu disse 6 pães na janta,(o que salva é que ele é magrelo), senão ia passar com 6 cabeças de alface na janta, kkkkkkk.
    boa sorte, Beijos
    Eli

  14. Você disse tudo Carol… é bem assim mesmo!!! É difícil voltar ao trabalho, claro, mais precisamos de um tempo para ser outra coisa além de mamãe, dona de casa e esposa! As coisas fluem melhor, e o reencontro é sempre magnífico… Trabalhar o dia inteiro, escutar sermão do chefe, e ficar nervosa com o trabalho, tudo isso acaba quando recebemos aquele sorriso acolhedor dos nossos bebês!!!

    Beijinhos

  15. Pois é, somos um delicioso poço de contradições: quando fui fazer a adaptação do Nicholas na creche e ele ficava chorando quando eu saía, dava um nó na garganta. Quando ele se acostumou e passou a gostar de ficar lá, e entrava me dando tchauzinho, dava um nó na garganta…rs… Mas saber que eles estão felizes é o que basta. E a gente feliz tem mais chances de fazê-los felizes, não é? Pois sempre que leio sobre as mães que deixaram tudo para serem apenas mães admiro essa capacidade de dedicação exclusiva. Mas eu não sou assim, preciso me sentir realizada em todas as áreas da minha vida: como mãe, como esposa, como profissional, como mulher… É o que você disse, cada uma tem de descobrir o que funciona para si. Beijocas
    Ronize Aline
    odonodalua.ronizealine.eti.br

  16. Carol,
    Como sempre, muito bom te ler.
    Me tocou o coração ler "você está certa e está no melhor caminho", às 4 da manhã, zureta de sono, enquanto segurava pitoquinho refluxento e gripadinho (por uma gripe que mamãe passou pra ele :-/ ) na vertical e desejava minha cama mais do que tudo nessa vida.
    É uma mistura louca de amor-cansaço-culpa-dúvidas, especialmente nesses primeiros meses, que dá um alívio se dar conta de que não tem receita de bolo pra criar filho e pra "criar uma boa mãe".
    Obrigada por um texto que "nos liberta".

    Beijos,
    Bib's

  17. Amei Carol! É isso aí!
    Seu filho deve ser orgulhoso da mãe fantástica que tem!
    Ainda não tenho filhos, mas não imagino parar de trabalhar nunca. Ficaria louca e depressiva em três tempos.
    Parabéns por mais essa etapa vencida e muito bem vencida!

  18. Nada mais certo, Carol! Adorei o teu texto!
    Na época de recém-nascida, depois de um parto super traumático, a Sofia passava umas 3 horas seguidas chorando (gritando, até) e eu fiz de tudo: terapias, vários médicos, livros, internet, outras mães, família… Mas sempre diziam que "é normal". Só que imagina, morta de cansada, sem dormir pq ela dormia só intervalos de 45 minutos pra acordar chorando, e agoniada, sem saber o que ela tinha… O que sobrava era ficar com ela, muito peito e canguru (não sei como se chama aí, aquele pano tipo sling, mas onde o bebê fica preso na barriga) e renunciar a muita coisa, inclusive sair pra rua com ela pq era estresse na certa… Isso tudo só pra dizer que o que me consolava na época era pensar assim: mas é por eu ser uma mãe tão boa e dedicada que ela nasceu aqui com a gente. Outra pessoa talvez já tivesse perdido a paciência. Pode soar arrogante, mas me confortou enormemente e até me motivou.
    Aqui na Áustria a licença maternidade dura dois anos (dependendo do caso até mais) e quando voltei ao trabalho (por lei vc tem direito ao "Elternteilzeit" que é poder trabalhar apenas 10h por semana) me senti renovada, feliz, ativa, com muito pique e até mais energia pra brincar com a Sofia. Ainda com tanta mordomia, tem muita mãe que prefere ficar em casa qdo acaba a licença. Mas eu precisava disso, de sair do esquema "parquinho – conversas com outras mamães – 24h prestar atenção na criança". Agora que ela passa a manhã na escolinha, voltei pra faculdade e tô fazendo até um curso de corte e costura. Aproveitando tudo como se não houvesse amanhã! 😀

  19. Oi Carol, acompanho seu blog desde o inicio (pelo menos já li ele todo), e devo confessar que ADOOOORO e também nunca tinha lido um texto tão sincero e maduro (não que você não tenha essas duas qualidades), mas a questão é que agora eu te vejo plena e realizada, sem frustrações ou arrependimentos por ter ou não sentido algo, e isso é muito bacana. Nunca havia comentado antes porque simplesmente achava que não tinha nada a acrescentar, mas dessa vez não me controlei e senti a necessidade de te parabenizar, o seu texto é maravilhoso! E por ver mamães tão realizadas como você que me dá cada vez mais vontade de deixar de ser Tentante e ser promovida a gestante logo, logo… Hehe.
    Parabéns mais uma vez!

    Bjos,

    PS.: Eu não tenho blog, mas meu e-mail é giba.ukeys@hotmail.com

  20. Eu simplesmente não consegui voltar. Assim. Me sinto mais tranquila com ela do meu lado, mesmo que isso me torne uma dona de casa… Mas tenho orgulho de quem consegue. Queria muito conseguir, mas sou fraca e não tenho coragem. Bjo e parabéns!

  21. Que alívio ler isso, porque meu coração tá pequenininho de ter que deixar o Felipe na escola para voltar a trabalhar, mesmo sabendo que não há opção, tenho que voltar e pronto. Arregalei os olhos e pensei: há vida depois da escola, hehehe. Obrigada por salvar meu coração do aperto :o)

    Bjs,
    Yara

  22. Carol, meu filho tem 5 meses e daqui alguns meses eu acho que voltarei a estudar, mas tenho tido muita dificuldade em pensar deixá-lo em uma creche ou com babá. Como você faz para que ele não tomasse nenhum leite artificial na sua ausência? Ele só toma sucos e papinhas?

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