ou
Sigo sem saber o que é Flanelinha
ou ainda
O conto do hospital
Ontem eu tava dizendo pra minha psicóloga que, quando eu quero ser pateta, eu sou pateta
mesmo. E que, quando eu quero falar de intimidades, eu vou e falo sem limites. E que graças ao bom deus eu moro na Argentina, assim eu fico fingindo que sou só uma entidade internética imaginária – ninguém encontra comigo na rua, nem fica me olhando, nem comenta “
olha lá aquela menina do muco, da camisinha, da sogra, da flanelinha”.
E assim vou levando a vida.
Há dois dias atrás,
vocês sabem, eu tive alta dos acompanhamentos médicos pós-aborto. Tudo muito bom, tudo muito bem, eu tava pronta pra viver a vida normal (=tava pronta pra dar). Só que também, há exatos dois dias atrás tenho sentindo uma coceira chatinha, um incomodo lááá na amiga. Toda mocinha que tem vida sexual ativa (eu não, no caso) e principalmente, que transa sem camisinha, já teve essa coceirinha chata. Aí é fácil: vai no médico, toma remedinho, passa creminho e pronto. Lavou, tá novo.
Só que eu realmente não estava tendo relações e comecei a ficar preocupada. Achei que poderia ser alergia ao absorvente (to usando essa pereba há 14 dias), então deixei rolar. Só que ontem começou a incomodar muito mais e eu fiquei tensa de verdade. E putz, por mais que eu esteja vivendo um momento de bom humor, tem só 10 dias que passei por uma das experiências mais traumáticas da vida, cheia de ameaças de infecções e afins. Não dá pra bobear com essas coisas, fiquei preocupada e resolvi ir ao PS (e eu já tenho carteirinha de fidelidade nesse hospital, de tanto que já fui lá, a recepcionista já me pergunta “vai ser o de sempre?”).
Por mais que eu soubesse que tinha uma chance enorme de não ser nada, fui ficando teeeeensa. O médico me perguntou o que houve e eu comecei: “
ai doutor, sabe o que é? é que eu tive um aborto faz 10 dias, eu tava de 12 semanas, mas com aborto retido desde as nove, foi muito ruim, mas logo depois que eu descobri isso tudo, comecei a ter o aborto natural e de fato tive, foi completo, mas fiquei um dia internada aqui, foi traumático, sabe?, daí desde então eu tomo antibiótico, já fiz milhares de ultrassons, tão todos aqui, quer ver?, minha médica me liberou há dois dias e há exatos dois dias, veja bem como o destino é besta comigo, eu to com essa coceira lá na amiga, só que eu tomo antibiótico, então acho tão estranho eu estar com essa infecção grave, sabe doutor, eu acho que é grave e eu deveria estar protegida pelo antibiótico!, e, olha, eu nem tive relações ainda, fiquei insegura, não tinha camisinha, mas po, a farmácia tava lotada e eu fiquei com vergonha de comprar, sei lá, mas enfim, essa coceira é tão chata, será que to com um tumor maligno? pode fazer uma biópsia logo? eu quero tanto ter filhos, doutor, ainda não sei se é agora, mas um dia vai ser, será que minha fertilidade foi comprometida?...”
O médico sabiamente me interrompeu e falou pra fazermos um exame físico pra ter certeza do que era. Daí, sem nem me oferecer um vinhozinho antes, ele veio com aquela mão cheia de dedos examinar a amiga. Ficou um tempinho calado olhando pra lááá e eu pensando no testamento que eu ia deixar, já escrevendo mentalmente uma carta de despedida pro meu pai, escolhendo uma esposa pro meu marido não se sentir muito sozinho... eu estava morrendo e tinha que preparar a minha ida.
Aí ele riu.
E olha, eu já to acostumada com médicos botando a mão lááá sem o menor clima (depois dessa rave de hospital, já to inclusive mostrando a amiga pra quem quiser ver – revista Playboy, fica a dica), mas um médico rindo dela, nossa, foi a primeira vez.
Aí eu ri também, né, pra não ficar chato ("
me mostra aí o teu amigo que eu fico rindo dele também, o babaca" - pensei, nao falei). Mas sei lá do que eu tava rindo.
Eis que ele falou: “
teu problema é simples: funguinhos”
Ah que bonito. Funguinhos (a palavra em espanhol é ainda mais fofa:
honguitos).
Me deu vontade de ir na loja comprar
honguitos de pelúcia pra ornar a minha cama, não vai ficar lindo? Vou botar todos os funguinhos sentadinhos lá, fofinhos e rindo pra mim todo dia de manhã. Um mimo.
Bem. Ele, muito didático (quase um pediatra), me explicou que temos funguinhos e bactérias vivendo no corpo. Só que, com o antibiótico que eu tava tomando (cabou hoje!), matei as bactérias e baixei a imunidade, daí os funguinhos ficaram sozinhos e fizeram a festa lááá na amiga. Mas ele disse que era uma coisa bem inicial e simples e nada a ver com o aborto, só teria que tomar um comprimido e tudo certo. Tudo isso, minha querida amiga e conselheira para assunto obstétricos, a
Paula, já tinha me explicado no dia anterior (fofa, brigada!), mas eu deixei o mocinho falar e fingi que não sabia de nada.
Pronto, depois de dizimar as minhas bactérias, agora to pronta pra matar os funguinhos (ah, cutchaaados). Fico pensando o que vai sobrar no meu corpo depois dessa chacina – “
merda na cabeça”, meu eu interno responde (favor não sugiram mais respostas. Grata.).
Era isso então folks, já to sã (NOT) e salva.
Coming up next:
Flanelinha - resolvendo o mistério.
Domingo! Assim que minha sogrinha chegar!