Os 50 mil e o amor pra recomeçar

Eu tinha todo um puta plano de brindes e prêmios e glórias pro momento que meu blog chegasse às 50 mil visitas. Queria fazer algo mais legal que nas 10 mil (lembram?). Maaaas. Tão todas cansadas de saber do meu momento brabeira atual.

Aí não tive tempo ou enormes vontades de sair distribuindo confetes e serpentinas por aí.

Quer dizer, eu até tive tempo. E o usei pra pensar. E, dentre as muitas coisas que pensei, tava o blog. O que fazer com ele? Abandoná-lo? Recomeçar? Como recomeçar? Vou mesmo fazer isso? E vi que o blog é só uma alegoria incompleta da minha vida. Mas, mesmo alegórico e incompleto, ainda assim, é parte de mim. E eu, inteira, (com o blog e tudo mais) mereço um novo começo.

Vai até o final do post e veja as tags: pré-tentante e começo. Igualzinho ao que era nos primeiros posts (caso você tenha paciência de ir lá ver pra checar, fica a dica). Impossível não cair na armadilha de pensar que estou de volta ao que era em setembro do ano passado. Me dá uma preguiiiça. Mas aí lembro de uma coisa muito incrível que uma vez minha psicóloga me falou. Eu tinha me queixado com ela que tinha a sensação de que sempre voltava aos mesmos assuntos, que tava dando voltas na vida, sem ir pra lugar nenhum. Daí ela discordou. Falou que, pra ela, na verdade, a vida está em espiral. A gente até tem a sensação de estar dando voltas, mas a cada ciclo, estamos sempre um pouco à frente.

Achei tão certo.

Acabo de dar uma volta no ciclo da minha espiral. Estou recomeçando, só que bem mais forte, mais vivida, com mais bagagem. É obvio que minha psicóloga tinha razão, eu estou mesmo um passo à frente.

Não sei pra onde vou daqui. Não sei se vou voltar a tentar o baby, nem quando, nem se vou contar rapidinho ou não. Nem sei ainda do que vou falar aqui. Se vou seguir falando de aborto ou de gravidez ou do baby dos outros.

Mas, finalmente, acho que não importa. Porque além de toda a bagagem de vida que carrego, me orgulho de ver que vocês já toparam viajar comigo, pelo menos nessas 50 mil vezes. Não tenho palavras pra agradecer por tamanho carinho! Em todas as dúvidas pré-tentativas, apoio durante as tentativas, felicidades mil na notícia da gravidez, identificação com os meus mau humores e enjôos, a imensa dor coletiva no aborto. Nenhum post meu ficou sem ser comentado, nenhuma semana se passou sem um novo email, sem uma nova amizade, sem um novo blog querido a ser adicionado no blogroll aqui do lado.

E hoje, enquanto eu pensava sobre tudo isso, por obra e graça do destino, a Jordana, querida amiga que fiz aqui pelo blog, me mandou um email com uma mensagem linda e uma música (e eu nem gosto duma musiquinha, vocês sabem). Ela dizia “fiquei me perguntando por que a gente continua todos os dias, mesmo quando tudo dá errado, mesmo quando tudo parece fora do lugar” e terminava concluindo que “talvez a gente continue por masoquismo, ou mesmo por teimosia - alguns dirão... ainda prefiro acreditar que a vida segue enquanto ainda existir ‘amor pra recomeçar".



Então é isso: essas 50 mil visitas, além de um marco muito especial pra mim e pra esse espacinho internético que vos fala, fazem parte do meu amor pra recomeçar.

Obrigada gatinhos e gatinhas!


(e eu juro que, nos 100 mil, eu faço uma bonita promoção!)

O relato do aborto

Hoje é o dia de botar isso tudo pra fora.

Mas antes, alguns avisos:
1. O post é longo, caso não tenham paciência, tudo bem, a gente se vê num próximo post.
2. Gravidinhas: CUIDADO. O texto é cheio de problemas de uma gravidez que não deu certo. Caso você seja muito sugestionada, duvido que te fará bem. Pensa bem antes de seguir.
3. Vou falar de coisas nojentinhas, você que não tá acostumado com a tosqueira do mundo materno, não se assuste.
4. Todo o relato é totalmente pessoal. Se está acontecendo com você, antes de qualquer coisa, pergunte ao seu médico. Não me use como base pra avaliar nada, ok?

Então tá.

Quem me acompanha há mais tempo sabe que, com 6 semanas de gestação, eu tive um corrimentinho estranho. Meu médico já tinha me avisado que, durante o primeiro trimestre, todos os fluxos do meu corpo iriam aumentar: corrimentos, suor, xixi, saliva. Até aí, ok. Mas, era um líquido diferente, amarelinho e com tons de rosinha. Alguns médicos ainda defendem que esse pequeno sangramento pode ser resultado da fixação do saco gestacional no útero. Ok. Além disso, eu tinha coliquinhas, que os médicos também dizem que é normal do primeiro trimestre, que é apenas o útero crescendo. Mas, fiquei com a pulga atrás da orelha. E aí vocês já sabem: corri pro hospital e foi diagnosticado um hematoma no saco gestacional.

Fiquei alguns dias em repouso, repeti o ultrassom e vi o baby, coração batendo, tudo certo. Porém, o hematoma continuava. Meu médico na época estava afastado, de licença por um problema de saúde. Fiquei preocupada de não estar acompanhada por ninguém e procurei outra médica. Gostei dela, da vibe que ela tinha. Mas, algo ainda não me convencia.

Meu médico número 1 voltou da licença e eu decidi ficar indo nos dois, até decidir o que fazer. Nas consultas depois desse ultrassom, nenhum dos dois pediu pra repetir o exame pra checar a evolução do problema. NENHUM. Mesmo com hematoma e corrimentos freqüentes (tive pelo menos mais 3 vezes), eu ligava pros dois e as opiniões eram as mesmas: fica em repouso relativo, segue tomando progesterona e Buscopan pra cólica. Mas, eu já tinha voltado pra vida, tava trabalhando, fazendo minhas coisas em casa (nada pesado, nada de faxina, nada de pegar peso).

Como as opiniões eram parecidas, comecei a achar que a neurótica era eu, que não tinha motivo pra tanta preocupação. Nisso já estávamos na décima semana, a barriga começava a aparecer e eu achei que era hora de começar a curtir. Fiz fotos da pança, brinquei de enxoval e tudo mais que eu achava que tinha direito (e tinha, não me arrependo de nada). Mas, algo me freava. Não sei o que era e não sei se posso chamar de intuição. Mas eu nunca comprei nada pro baby. Nem roupa de grávida pra mim. Nem mexi em nada na minha casa. Tinha medo da barriga e achava vergonhoso quando as pessoas passavam a mão nela. Sentia até medo de conversar com o Maridón sobre as mudanças que estavam por vir, sobre a licença maternidade, sobre guardar dinheiro. Não chegamos a fazer nada disso, pra vocês terem noção.

Nessa época (ainda por volta das dez semanas), os sintomas da gravidez começaram a sumir. Os enjôos cessaram, o mau humor parou, os seios pararam de inchar ou doer (e isso eu não me perdôo por não perceber, foi meu primeiro sintoma de gravidez, eu deveria ter reparado nessa mudança tão brusca). Mas bem, achei que era porque o primeiro trimestre tava acabando, todo mundo diz que os sintomas dão um tempo, achei normal.

Tive nova consulta com os dois médicos e nada de falar do hematoma. Só o que eu ouvia era “é normal, todo mundo tem, o organismo absorve sozinho”. Os dois me pediram pra fazer o ultrassom habitual do primeiro trimestre, esse que também tem a translucência nucal.

Aí, ao mesmo tempo que me enchi de esperança e amor e vontade de ver de novo aquele coraçãozinho mágico batendo, me bateu um PUTA medo. Que prontamente todo mundo mandou eu parar de ter. De forma nenhuma to culpando as pessoas que só queriam me ajudar a não ser neurótica, mas sinceramente acho que uma mãe precisa ouvir seus instintos.

Foram dias difíceis. Fiquei mega ansiosa e sem ter muito com quem desabafar. Na sala de espera pra fazer o ultra, eu me tremia inteira, não conseguia fixar um pensamento, me sacudia na cadeira. Fomos chamados e pronto, começou o exame. Gel gelado na barriga, Maridón com sorriso besta segurando a minha mão. Até que o médico fala “olha, não to conseguindo ver direito, vamos fazer um transvaginal”. Maridón pergunta pro médico se isso era normal e automaticamente eu penso “não, não é normal”. Mãe sabe, mãe sempre sabe.

No ultra transvaginal, recebemos a notícia que o feto não tinha batimentos cardíacos. O cordão umbilical tinha se ligado justamente onde o hematoma estava, daí o feto ficou sem alimentação e respiração. E morreu. Eu, deitada na maca da sala de exames, era a calma em pessoa. Perguntei várias coisas pro médico, porque aquilo tinha acontecido, se foi alguma coisa que eu fiz errado etc. Estava plácida.

Mas, quando levantei... meu mundo caiu. Olhei pra cara do Pedro e vi aquele olhar profundo de decepção e tristeza. Toda aquela animação que ele tava na sala de espera, todo aquele discurso de “tudo vai dar certo” que ele incorporou (e eu também, de certa forma) deram lugar a um vazio bem grande e escuro. Acho que minha cabeça voltou pro lugar e eu percebi finalmente o que tinha acontecido. Chorei tanto. Mas tanto. Que acho que só parei no dia seguinte.

Bem, aí vocês já sabem: eu tive um aborto retido, com morte fetal provável nas 9 semanas. Descobri isso com 12. Fiquei muito preocupada de ter estado todo esse tempo com a gravidez inviável, sem que meu corpo tivesse percebido. Mas, como estava tomando progesterona desde as seis semanas (por causa do hematoma), a explicação é que a suplementação do hormônio é que não deixou que o corpo entendesse sozinho o que tinha acontecido. Uma vez que eu suspendesse a medicação, tudo ia seguir naturalmente.

O médico número 1, quando questionado por mim se não deveríamos fazer a curetagem, ficou todo melindrado. Falou que se eu quisesse, podia procurar outra opinião, que ele não ia fazer, que de acordo com a longa experiência dele, em 80% dos casos, o corpo faria o aborto natural. Meio que brigou comigo pela minha insegurança e repetiu diversas vezes que eu era livre pra procurar outra opinião e pedir que outro médico fizesse o procedimento. Me tratou como uma boba idiota e disse que abortos são normais e que mal íamos nos lembrar disso quando eu ficar grávida numa próxima vez. Mas que, de qualquer forma, ia me mandar fazer risco cirúrgico (pra já me preparar pruma possível curetagem) e me mandou fazer um ultrassom pra acompanhar tudo e uns exames de sangue. E me mandou pra casa, pra ficar uma semana em repouso.

Já a médica número 2, ficou sentida com o ocorrido, me abraçou e também falou que o aborto ia acontecer naturalmente. Me mandou voltar a trabalhar (oi?), que encarar a vida normalmente era a melhor coisa a se fazer. Mas doutora, e a progesterona? E se não acontecer naturalmente? Como voltar a trabalhar depois desse baque? Ah, tudo bem, vai ser como uma menstruação mais forte, com cólicas e tal. Volta pra sua vida e vamos marcar uma consulta pra daqui a dez dias. DEZ. Ela mandou uma pessoa com aborto retido e visivelmente abalada de volta pra casa, com retorno ao consultório em dez dias. Foda-se o risco de infecção, foda-se o psicológico, foda-se tudo.

TUDO ISSO É NORMAL, os dois abestalhados me disseram.

Olha, me chamem de LOUCA, mas NORMAL não é igual a COMUM. Sei que hematomas, abortos e demais coisas erradas são comuns, freqüentes. Mas NORMAL é uma gravidez ir até o final dos 9 meses e NORMAL é que os médicos se preocupem com o TODO, que orientem tanto o físico como o psicológico de seus pacientes, principalmente num caso grave como esse. Aborto é GRAVE, tá?

Mas bem. Fui pra casa, peguei o que me interessou de cada médico e segui em frente. Fiz o repouso recomendado pelo médico 1, fiz os exames e esperei as dores da “menstruação forte” que a médica 2 tinha previsto. O aborto demorou 3 dias pra começar e veio acompanhando de dores freqüentes e suportáveis. Até que, na madrugada da segunda-feira passada, as dores ficaram incrivelmente bizarras. Eu tinha contrações bem doloridas, que vinham a cada 2 minutos e duravam uns 40 segundos cada uma. Eu sei que eram contrações e não cólicas porque era uma DOR, mas uma DOR que não tem explicação. Parecia que eu ia morrer. Eu entrava em transe a cada dois minutos. Urrava, revirava os olhos, dobrava o corpo. Depois passava e parecia que nada tinha acontecido, dava até pra cochilar. O médico 1 já tinha avisado que não poderia atender o celular, que nem era pra eu ligar. Então recorremos à medica 2, por várias vezes. Ela mandou tomar Buscopan (que não fazia nem cosquinha), depois mandou eu ir pro vaso sanitário fazer força, porque se tava doendo tanto era porque já estava no final. Eu fiquei mais de cinco horas nesse processo. CINCO horas com contração a cada dois minutos e ainda por cima tentando fazer força, pensem bem.

Comecei a ter hemorragia bem forte, ficar fraca e ter vontade de desmaiar. Tava cansada e com medo. Mesmo contra a orientação da médica 2, fomos pro hospital. Me preparei pra curetagem e desencanei, eu só queria que aquele sofrimento acabasse.

Cheguei lá já quase sem consciência, tava no mundo paralelo da dor sem fim. Mal tirei a calcinha pra médica do plantão examinar, senti um volume grande descendo, corri pra maca (sabe lá deus como eu consegui CORRER nesse momento) e pronto, expeli os restos. Não vou entrar em detalhes sobre esses “restos”, mas digamos que foi uma das cenas mais bizarras que eu já vi na vida.

Depois disso, fui internada e passei o dia na ocitocina, no antibiótico e no analgésico. Ainda sangrei muuuito, mas o ultrassom no final mostrou que meu corpo tinha expelido quase tudo, só tinha sobrado o endométrio, ainda bastante espesso. Mas que não ia precisar de curetagem ou mais tempo de internação. Ganhei mais dois dias de repouso e tinha que voltar pra revisão no hospital mesmo, no final desses dois dias. Que foi ontem.

Voltei e soubemos que o endométrio continua espesso, mas já afinando. O processo é relativamente lento, vai durar mais alguns dias, mas segundo a médica fofis do plantão, é normal. Ela me deu o celular dela, falou pra ligar e voltar lá caso tenha qualquer dúvida ou insegurança, me passou antibiótico pra evitar as tais infecções e um remedinho tipo ocitocina, pra ajudar meu útero a seguir eliminando o endométrio. De qualquer forma, tenho retorno lá em 10 dias (agora sim tem sentido esperar dez dias) e vamos ver como evoluiu tudo.

***

Bem, parabéns pra você que chegou até aqui. Se foi complicado ler, imagina viver isso tudo. Tenho ainda mil opiniões sobre o atendimento médico DEFICIENTE que recebi dos meus dois GOs, aos quais pretendo nunca mais voltar. Mas, fica pra um próximo post.

De lição disso tudo, por agora, acho que fica a que médico NÃO É DEUS. Eu acho que confiei demais neles e “de menos” em mim. A relação que temos com eles precisa ser de troca e não de mestre e aprendiz. É necessário perguntar SIM, encher o saco SIM, até que você fique totalmente segura de que tá tudo coberto, tanto o físico quanto o psicológico. Não acho que deve haver espaço pra dúvida. Não gostou do médico? Vai em outro.

Não acho que meus médicos tenham sido responsáveis pela morte do meu filho, de jeito nenhum. A gravidez não era viável e pronto. O que acho que é que o meu sofrimento poderia ter sido diminuído, caso tivéssemos diagnosticado a morte fetal antes.

***

Bom, considero encerrado esse papo chato de detalhes do aborto, ok? Se alguém tiver alguma dúvida, me manda e-mail que eu juro que respondo, terei o maior prazer em ajudar.

;)

De mais ninguém




Porque a cada dia que passa, eu aprendo que a vida não é linear. A gente vai e volta conforme a maré, conforme o tempo, conforme o gosto de algo maior que nos move. Se é Deus, as energias ou qualquer outra coisa, eu não sei.

Então, se ontem eu estava bem, não significa que hoje eu esteja melhor. Ou pior. Ou nada.

***

Hoje estou abraçada na minha dor, no meu vazio. Choro bastante, soluço, às vezes solto uns gemidos altos de tanto que meu coração dói. Apesar de tudo isso ser muito triste, acho tão bom viver intensamente o que me acontece. Eu não assisto a minha vida, eu vivo, envolvo, me jogo e assumo. Nesse sentido, poder sentir que tá doendo pracaralho é a minha vitória.

É meu troféu, é o que restou
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor,
Eu tenho a minha dor.
A sala, o quarto,
A casa está vazia,
A cozinha, o corredor.
Se nos meus braços,
Ela não se aninha,
A dor é minha, a dor.

I’m only sleeping



acho que posso escrever todo um blog colocando música em todos os posts.
acho que posso escrever todo um blog colocando música dos Beatles em todos os posts.

Cês me aturam?



Bem, a música é pra explicar meu feeling de hoje. Finalmente pude tirar um dia pra mim, só pra mim, sem marido, sem filho, sem nada. E, em vez de ficar depressiva mode on, sabe o que fiz? Dormi. Dormi como não durmo há tempos.

Please don't spoil my day
I'm miles away
And after all
I'm only sleeping


Keeping an eye on the world going by my window
Taking my time

Mas sem essa de dormir pra fugir de qualquer coisa. Não. Acho que foi (está sendo) o sono dos justos, esse que te prepara pra próxima, esse que te renova a energia.

E posso falar? DELÍCIA. Tava mesmo precisando.

***

Tô me preparando pra contar tudo que aconteceu, já tô quase pronta.

Mas muitos estão preocupados e pedindo pra eu dizer minimamente como estou, então vejamos: fiz um aborto totalmente natural, que praticamente terminou ontem. Não aguentei as dores (foi algo incrivelmente doloroso que nunca senti igual na vida), fiquei fraca, quase desmaiei, daí resolvemos bancar uma ida ao hospital, mesmo correndo risco de curetagem (coisa que eu não queria). Mas, chegando lá, parece que eu tava nos finalmentes da “expulsão”. Dei uns dois gritos e puft, cabou. Passei o dia internada pra monitorar e no final fiz um ultrassom, que mostrou que não restou mais nada.

Aqui vocês podem estar pensando que eu sofri, mas não: foi a melhor notícia. MELHOR. Ver meu útero limpo, só com alguns coágulos do endométrio foi ótimo. E nós mocinhas sabemos que endométrio sendo expelido é menstruação. Claro que sei que não estou menstruada, mas a sensação e o “visual”, digamos assim, é de menstruação e não mais de aborto. Em dois dias, voltarei ao hospital para novo controle, mas acho que vai ficar tudo bem.

Ter ficado quase uma semana com o feto morto dentro de mim me fez um mal que nem eu mesma tava conseguindo perceber. Muita gente que já teve essa experiência me sugeriu curetagem, mas algo em mim gritava que meu corpo ia fazer naturalmente. E assim foi.

***

Então é isso, belezinhas: tá tudo bem. Estou em repouso (o trauma físico do aborto foi grande) e tirando o dia pra recuperar a força (só a força, porque o humor já voltou, eu fiz milhares de piadas amarelas ontem no hospital que até tenho vergonha de contar).

E amanhã... bem, amanhã será um novo dia.

My Sweet Lord



(tô tão George Harrison ultimamente, me faz tão bem. Thanks, George)


Quase 100% das manifestações que eu tenho recebido tem a mesma frase (com alguma variação, mas a essência é a mesma): estou à disposição para ajudar/conte comigo.

É difícil pensar no que pedir, eu morro de vergonha de abusar das pessoas, fico perdida.


Mas, hoje vou pedir mesmo e, quem quiser me ajudar, saiba que me fará muito feliz: às 20h de hoje (horário de Buenos Aires, que é o mesmo de Brasília), vamos fazer uma oração para o meu filho. Pra que sua alminha fique bem, encontre seu caminho e saiba que sua função foi cumprida. E pra mim e Maridón também, pros nossos corações ficarem mais confortados.

Vejam bem que não tô falando de religião nenhuma. Na verdade, nem precisa acreditar em Deus, nem nada disso. Só peço que, quem quiser participar, pense bem positivo por um minutinho, pense em amor, nas pessoas queridas, num mundo mais feliz, algo assim. Coloquem essa música aqui em cima pra tocar, dêem um beijo nos amados, dêem um sorriso.

A gente se une em pensamento e dá aquele abraço que tanto queríamos dar se estivéssemos perto fisicamente.

Só isso já valeu muito, viu?

E desde já: obrigada, obrigada, obrigada.


While My Guitar Gently Weeps




Não sei como agradecer por tudo isso. Tem chegado amor por todos os lugares possíveis. Nos mais de 100 comentários, mais de 50 emails diretos, inúmeros emails indiretos - que mandaram pra terceiros perguntando da gente -, muitos posts, recados, mensagens, ligações. Tenho lido e ouvido tudo. E tenho vontade de ler de novo e ouvir de novo e agradecer um por um.

Vou fazer isso.

Enquanto ainda não tenho força suficiente para tal (nem pra levantar da cama direito eu tenho), sigo aqui quietinha, me dando ao direito de apenas receber todo esse amor.

Mas tem duas pessoas que não posso esperar mais nem um minuto pra agradecer. Primeiro, pra minha prima Alice. Essa pessoa simplesmente largou tudo: o trabalho, o marido, as obrigações da vida. Pegou um avião e tá vindo pra Buenos Aires hoje. Simples assim. Amor na sua forma mais pura e entregue. Eu tinha uma irmã, a Fernanda. Quando ela morreu, eu achei que tinha ficado sozinha no mundo, sem irmãos. E olha como eu tava enganada. E como a vida deu o seu jeito pra me mostrar isso.

E segundo, mas não menos importante, quero agradecer ao Pedro. Ele mesmo, o Maridón. Que eu sei que tá devastado. Eu vejo. Mas está firme ao meu lado, colado em mim, enxugando cada lágrima, forte, bonito, como sempre foi. Tão, tão amado. Se não fosse esse homem na minha vida, eu sinceramente não sei o que seria de mim.

***

Fora os agradecimentos que eu quero fazer em um futuro próximo, também estou comprometida a contar pra vocês tudo que aconteceu, com calma. Tenho que tirar algo positivo disso e, se puder ajudar alguém com essa experiência, já ficarei bem.

Mas, tudo ainda está longe do verdadeiro fim. Eu tive um aborto retido, ou seja, o feto morreu e meu corpo não percebeu. Muito provável que tenha sido pela progesterona que estava tomando exatamente pra “segurar” a gravidez. Logo que tivemos o diagnóstico, a orientação foi parar imediatamente com a medicação e esperar o aborto espontâneo. E é nessa fase que estou.

Se não acontecer nada até o final de semana, terei que ir ao hospital pra ver como seguir, muito provavelmente será com medicação e, se necessário, curetagem.

Curioso pensar que passei três meses rezando pra não ver sangue na calcinha ou não ter cólicas e agora, de uma hora pra outra, é o que eu mais quero.

***

Dói demais tudo isso. Escrever esse post me custou 2 horas e muitas paradas pra chorar. Mas é o que eu preciso, eu sei. Que meu corpo e minha mente entendam que chegou a hora de se despedir do pequeno serzinho sem vida que ainda está aqui dentro.

Convencer o coração é que vai ser difícil.

Todo carnaval tem seu fim

e chegou o final do meu.

estou em choque e sem muitas palavras pra falar desse momento. o baby não resistiu ao hematoma e se foi, provavelmente nas nove semanas.

***

preciso de um tempo.


Notas mentais

 ou Ficando desesperada antes do ultrassom


1. Não marcar mais ultrassom durante a semana. Acaba com o dia de trabalho. Com a semana de trabalho. Com a quinzena de trabalho. O exame é as 17h40 e já tem uma hora que não consigo mais fazer nada. Fora que já deu tempo de todo mundo me mandar email me perguntando como foi, de receber ligações, MSNs, SMSs, sinais de fumaça etcs. Acho que saí de casa com a palavra ULTRASSOM tatuada na testa.

2. Se não tiver jeito de ser num sábado, marcar durante a semana, só que na parte da manhã. Motivos descritos acima. E fora que não vai dar tempo de fazer draminha: acorda e pronto, já foi.

3. Perguntar antes sobre as tecnologias de gravação da clinica. Hoje liguei pra lá pra confirmar e perguntar qual mídia deveria levar pra registrar o exame. A atendente me responde (ativar tecla SAP pro espanhol): “be-atche-ésse”. “Oi?” – disse eu. “Be-atche-ésse”, ela repetiu, “el rollo cuadradito”. CARACA mermão, VHS! (minha carioquice vem a tona nessa horas, viu Ro?). Porra! Onde vou arrumar uma dessas? Tem alguém no planeta que ainda usa essas fitas? E pior: se esse povo da clinica ainda usa VHS, como será o aparelho de ultrassom, gentes? Hoje é a minha TN, vou morrer, quero aparelhos modernos, robôs, coisas master blaster advanced pra eu ver meu filho inteiro, falando, andando, tricotando, lendo um livro!

Ou seja.

Não esperem fotos mil, ok? A não ser que alguém me arrume uma VHS até lá, vai ficar tudo na memória de mommy aqui.

Volto mais tarde com news.

Eu sei que vou te amar

Pequeno,

Amanhã vou te ver. Estou esperando por esse encontro há exatamente um mês, que foi quando te vi pela primeira vez.

Tenho medo, filhote. Medo de você não estar mais aqui em mim, medo de você ter algum tipo de problema, medo da tua casinha ainda não estar completamente segura, como você merece que esteja. Não me acho nada diferente de ninguém por ter esse medo, você é o que mais prezo no mundo, não teria como ser de outra forma.

Mas entrei numa energia boa, desde que acordei hoje pensando em você (como eu penso todo dia e toda noite). Eu sei que a nossa história já tá escrita. Que não importa mais o que vai acontecer. Desde que soube da tua existência, eu já sabia. Não sei o que é que eu já sabia. Mas é um sentimento que está comigo desde sempre. Acho que é amor, filho. 

Hoje, eu e você escutamos muito essa música aqui embaixo, que resume muito bem (e muito melhor que eu) esse enorme sentimento que nos envolve.

Eu Sei Que Vou Te Amar




Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Olha só quem apareceu! - capítulo 2

bunitas!

hoje foi um dia tão gostoso! fiquei completamente imersa em boas reuniões de trabalho (rareza nos dias de hoje), me afastei um pouco do computador (rareza nos dias de hoje), me senti bonita (rareza nos dias de hoje), tive um jantar ótimo com queridas do Brasil (graças a deus não é tão rareza). Sabe esses dias que não tem nada de muito incrível, mas fazem a vida valer a pena, pelas coisas mais simples? Então. Foi o meu.

Ótemo, tava precisando muito pra sair da neura em que estava nos últimos tempos.

Aí cheguei em casa agorinha do tal jantar e fui lá eu pra frente do espelho fazer o autoretrato grávido da semana; eu tava devendo. Fiz mil fotos dessa vez e - duh - todas ficaram péssimas. Aí, teve um momento que eu comecei a rir da minha própria desgraça: como pode ser que eu SEMPRE fique com cara de ameba cansada mesmo num dia feliz? Eu ri, tive um senso de oportunidade comigo mesma, apertei o botão e saiu a foto espontânea:


Mostrando todos os dentes, cavalo à venda feelings.


Mas e aí, será que cresceu da semana passada pra cá? Comparemos:


eu acho que não, mas vamos combinar que a roupa não ajuda muito (em parte né, porque vejam a mágica que a roupa preta faz num braço gordo - é de grande ajuda).

ATUALIZANDO:
a abestalhada que vos fala resolveu que roupa preta é loosho, mas que não serve pra comparar barriga. Aí peguei a mesma blusa da semana passada e fiz outra foto, inclusive com a mesma língua pro lado, iNgualzinho da outra vez. Vai que o tamanho da barriga muda de acordo com o posicionamento lingual? Nunca se sabe. Detalhe pra blusa ao avesso e pra calça jeans apertando a parte de baixo da minha pobre pança:



Vamos comparar de novo?


agora eu acho que cresceu sim e ficou ainda mais pontuda, parece que eu comi uma azeitona.

semana que vem tem maaais fota!

(uff, será que vocês me aguentam até o final da gravidez? Fica a dúvida)

As 11 semanas e o feeling

ó que bunito: tenho a impressão de que há 3 minutos atrás eu tava de 5 semanas e achando que demoraria uma eternidade pro tempo passar. Mas que nada! Passou rapidinho e hoje já completamos 11 semaninhas e entramos na 12ª! Na semana que vem, se encerra esse primeiro trimestre (acho, porque sou ruim nessas contas de gravidez). Mas, mesmo que não seja exatamente na próxima terça, eu já to começando a ficar mais tranquila desde agora. Os enjôos continuam (diminuíram, mas volta e meia to abraçada no vaso de novo) e as oscilações de humor também (parei um pouco de implicar com o marido, mas em compensação, o trabalho tem sido muito difícil e estressante pra mim). Porém, também tenho ocasiões de muito bom humor, mais energia e mais vontade de comer coisas gostosas e saudáveis. E tem a barrigolinha, que cresce tímida, mas cresce sim e é muito gostoso ver isso acontecendo.

Eu tinha me prometido fazer fotos toda terça-feira, pra acompanhar a evolução da barriga, mas, pra isso, hoje eu precisaria ter acordado 10 minutinhos mais cedo. Isso sozinho já seria complicado, mas pra complicar, está fazendo 2 (eu disse DOIS) graus em Buenos Aires (com sensação térmica de ZERO). Não tinha força no universo que me convencesse que seria LEGAL sair da cama quentinha pra modelar diante do espelho. Aí eu aproveitei que não ia acordar antes mesmo e fiquei 10 minutinhos A MAIS debaixo do edredom. E de noite já combinei de sair pra jantar com as amizades, não sei que horas vou chegar em casa. Mas juro que vou tentar fazer essas fotos em breve, ok?

***

O que ainda me preocupa de verdade nisso tudo é que não sei como evoluiu o hematoma no saco gestacional, se sumiu, se cresceu, não sei nada. Não tenho sentido dores, mas sigo tomando progesterona e o remédio que evita contrações do útero. Também sigo em repouso moderado: pegando leve em casa, não fazendo caminhadas longas, não pegando peso, não fazendo sexo (ai meu deus, isso é uó). Na semana que vem, junto com o “aniversário” de 12 semanas da barriguinha, justo no mesmo dia, tenho marcado um ultra, com a tal da translucência nucal. Impossível não ficar minimamente tensa. Não só pelo exame em si, mas porque vai ser a hora da verdade dessa gravidez. Sei que não deveria jogar tanta expectativa, mas confesso que é muito difícil. Tenho planejado meus dias até lá pra sempre ter algo pra fazer e não dar muito espaço pras caraminholas da minha cabeça.

Daí, a caraminhola (boa) que tem rolado é a do sexo do baby. TODO MUNDO me pergunta se eu já sei, se eu tenho algum feeling, se já vai dar pra ver no próximo ultra. Claro que vou tentar ver algo na semana que vem, mas sei que é muito difícil.

E eu e Maridón nem somos tão ansiosos com isso, a gente sempre concordou que sexo o filho pode escolher quando crescer (ho-ho). Só que de umas duas semanas pra cá, comecei a ter um feeling. Sei lá de onde vem isso.

Primeiro, tinha decidido guardar só pra mim e não contar pra ninguém, sei lá, superstição. Mas quem que eu to enganando, né? Superstição é o caracola. Eu tava é com vergonha de falar e errar! Logo a mãe da criança sentindo tudo errado? Vergonhoso.

Só que, ah, bobeira, se eu errar não tem problema não. Eu acho que é um menino. Não pela barriga pontuda, nem nada dessas crendices. Eu simplesmente acho.

Durante toda a vida, eu mal pensava na possibilidade de ter um rapazinho, achava que tinha sido feita pra ser mãe de menina. Mas aí a possibilidade diferente começou a mexer comigo, me fez ficar emocionada, sei lá. É sentimento, é instinto, não dá pra explicar. Dá uma euforia tão boba no coração que agora eu só consigo pensar em nome de menino, em quarto de menino e roupa pra menino, menino brincando, menino dormindo, menino acordando, menino, menino, menino.

Mas, a verdade é que, embora eu queira saber e ache que essa é uma ansiedade super gostosa da gravidez, não me importa tanto. Filho é filho, né gente. Antes de engravidar eu não entendia isso não, achava que era recalque de mãe. Mas putz, é fortíssimo: o que mais quero é que esteja tudo perfeitamente bem. E tenho dito.


(mas, se você grávida estiver muito ansiosa, a Maya comprou um teste de farmácia ótemo pra testar o sexo do baby dela! Olha !)

Enxoval - parte 1 de infinitas

Vamos falar de coisas mais amenas, então? Vambora.

Desde que engravidei, diante dos problemas, acabou que não curtir supers a coisa toda. Grande parte do tempo, estive em repouso ou vomitando, então ainda não bateu a vontade capitalista selvagem de sair por aí comprando qualquer coisinha de bebê que eu vir pela frente. Mas sei que esse momento ainda há de chegar. Até porque precisa montar enxoval. Ô palavrinha pra me assustar essa, viu. Depois que casei, achei que não ia ter que viver esse pesadelo de novo, mas ó, que ingenuidade. O tema enxoval ataca novamente (meda!!!!).

Tudo isso pra dizer que não comprei nada ainda, mas já tô preocupando.

O que sim comecei a fazer foi abrir um excelzinho (ADORO um excel) pra tentar começar a planejar a questão. Planejamento esse que talvez dure mais que a gravidez. Porque gentes, tem coisa mais complexa do que montar todo um aparato de sobrevivência para uma pessoa que ainda não chegou ao mundo? Pessoa essa que você ainda não sabe o tamanho, o sexo, os gostos, as necessidades? Viajo TO-TAL. Já viajaria de qualquer jeito, mas ainda por cima fui descobrir que há toda uma nomenclatura diferenciada pra vários elementos, tipos: mijão (pra mim, é quem faz muito xixi), pagão (pra mim, é quem não é católico), moisés (pra mim, um profeta). Outro dia tava lendo um exemplo de enxoval que ganhei numa loja e, conforme ia avançando na leitura, eu ria como se estivesse rindo de livro de piada. É hilário o tamanho do absurdo (e do gasto também, meu cartão de crédito vai rir à beça).

Depois, ainda me liguei de uma coisa importante: não dá pra sair por aí comprando qualquer coisa que achar bonita, tem que pensar em tamanhos (que também já descobri que não há padronização, tem que ir no olhômetro), época do ano que o bichinho vai nascer, tecidos confortáveis, fáceis de lavar, sem fru-frus que possam dar alergia, evitar desperdícios e por aí vai. Fora os elementos que não são roupas (cabeça de mãe de primeira viagem só pensa em roupa e esquece do resto), tipo mantas, cueiros (quem?), fralda de mão, fralda grande, fralda pequena, fralda de pé, fralda de braço, edredons, plushs e muitas outras palavras doidas que eu não sei o que querem dizer (tem curso de enxoval? minscreve?).

Maaas, ainda há muuuito tempo pela frente. Muito muito muito tempo (não discordem, faz favor). Então, vou seguir fingindo que não é comigo, sem comprar Lada, só ganhando um presentinho aqui, outro acolá e achando que TÁ BOM.

Ó aí o que já ganhamos:


tadinho do meu filho pobrinho que só tem meia dúzia de bodys, mas pelado já não vai mais ficar.



ó que cuti-cuti que a tia Ju deu. Pra não ter nada de palhaçada de querer ser argentino.



Sapatinhos. Dizem que é inútil, mas who cares, né? O do Botafogo foi meu pai que deu e eu achei o máximo e Maridón flamenguista não curtiu. O vermelhinho dizem que dá sorte pra sair da maternidade.



Girafinha fofis que minha amiga Aline deu. Vem abraçada com uma mantinha super delícia. Peguei amor e quero abraçar a mantinha também. Pode, filho?



Pra não dizer que sou zura não comprei nada: um belo dia de maio, eu decidi comprar alguma coisa bunitinha pro meu filho inexistente, sei lá, acho que pra mover as energias do universo e incentivá-lo a vir. Fiquei horas na loja namorando coisinhas e até que achei esse body muito simpático (é body mesmo ou tem outro nome?). A moça da loja perguntou se eu estava esperando baby, eu falei que não, que o presentinho era apenas uma idéia. Dois dias depois, descobri a gravidez. Rá!


Bom, gente, o papo do enxoval termina por aqui. Mas, como já anunciei no título, é assunto infinito, então, em breve, voltaremos com mais um post feito especialmente pra mim pra você na programação deste blog.

muah!

Devaneios de uma (quase) barriga II - um adendo

Percebo que tem muita gente nova me lendo. E isso me faz muito feliz. Mas também por isso, acabo recebendo comentários de pessoas que não me acompanham desde o começo e não sabem muito da minha vida. Aí acabam me julgando. Eu acho que tudo bem que me julguem, se eu não quisesse ouvir o que vocês tem a dizer, não teria blog. Mas sinto que rola uma falta de contexto em alguns comentários, que acabam me ferindo um pouco.

Ok. Então leiam a próxima frase com calma: eu sou a pessoa mais feliz do mundo de estar grávida.

Viveria cada enjôo, cada medo, cada alteração brusca de humor, tudo de novo, só pra não ver mais a linha única negativa no teste de farmácia. Que eu vi algumas vezes e me fizeram sofrer demais. Tudo que eu passo agora tem um objetivo maior, tem um coração que bate, é a promessa de uma nova e arrebatadora vida. O grande amor da minha vida está por vir, cresce dentro de mim e toda e qualquer coisa negativa é mínima diante disso.

Tenho uma história de vida complexa. Embora ache que todo mundo tem, entendo o meu passado como base para a construção de quem eu sou, dos medos e sofrimentos que eu tenho.

Qualquer grávida tem suas neuras, não? Ok. Vamos partir desse pressuposto.

Mas...

... minha mãe teve meningite. Por isso, ficou surda, completamente surda. Eu convivi com uma deficiente a vida toda. NÃO É FÁCIL. Tenho medo da translucencia nucal dar merda? Tenho. Porque EU SEI o que é ver quem você ama com uma limitação. Amaria meu filho infinitamente (como amei a minha mãe), independente de qualquer coisa. Mas não quero isso pra ele.

... minha vó, um dia, teve uma dor de cabeça. Morreu uma semana depois, de aneurisma. Era uma vó jovem, de 64 anos. Eu tenho medo de coisas que parecem pequenas, como uma besta dor de cabeça. Desconfio de cada mínima coisinha errada (e além disso, com a ida dela, fiquei com apenas um avo, o paterno).

... minha mãe e minha irmã foram brutalmente atropeladas na rua da praia, em Saquarema. Morreram as duas, DO NADA. Eu amei muito essa minha irmã, eu tinha uma família, um lar. Que foi destruído. Sim, eu tenho medo que aconteça de novo. Quem tá vivo, pode morrer SIM, a qualquer momento.

... meu tio querido um dia saiu pra trabalhar. Antes do almoço, teve um infarto fulminante. Como trabalhava só com a minha tia, foi ela que teve a dor dilacerante de encontrá-lo sem vida, com a cara em cima do teclado do computador. Tia essa que dois anos antes tinha perdido a irmã e a sobrinha. E outros anos antes tinha perdido a mãe. Não venham me dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, porque ele cai sim.

... eu, por muitos motivos, moro fora do Brasil. Só eu e meu marido. A sortuda família que escapou das mortes e acidentes não está perto de mim. Meus amados amigos tampouco. Tenho um grupo de queridos por aqui, mas cada um está construindo sua vida, todo mundo trabalha. A internet nos aproxima a todos, mas quando eu estive em repouso, por exemplo, eu fiquei SOZINHA. Meu marido fez o que pode, mas não tinha ninguém pra me fazer um feijão, pra me fazer cia. um dia de tarde, pra cuidar um pouco do meu cachorro. Não é uma reclamação. Estar aqui é uma escolha minha, mas tem seu ônus.

***

Quando eu fiquei grávida, foi um bálsamo pra minha família. Todos choravam muito, felizes e realizados. Como eu. Porque a minha gravidez nos disse que a vida é possível. As mortes e as dificuldades nos ensinaram que o amor não tem fim, mas ver a vida dando uma volta e renascendo é simplesmente SENSACIONAL. Não tenho palavras pra descrever pra vocês e, mais ainda, pro meu filho, como ele é querido, amado e esperado. Sua vinda é um vento fresco de Deus que sacode os meus cabelos, me faz mais bonita, me arrebata.

Eu conto aqui as angústias que venho passando não pra me fazer de vítima ou pra chorar as pitangas de uma gravidez difícil. Nem acho que minha gravidez seja difícil. Mas é que tudo é muito novo, eu me sinto diferente e eu tenho medo. Do desconhecido, bom ou ruim.

Cada vez mais acho que cada mulher sente a gravidez de uma forma e eu, sinceramente, não me importo mais com as histórias alheias. Claro que gosto de saber da experiência das mocinhas, me divirto e me informo, mas já não me baseio por isso. Então, gatas, por favor, não me tomem como exemplo pra nada, tá? Tamos aqui pra trocar figurinhas, rir e chorar umas com as outras, mas cada uma segue sua vida, seu estilo, sua opinião. E fiquem tranquilas que, embora meio louca, eu sou acompanhada por psicólogo, há mais de um ano.

***

E olha que conexão: a , minha querida e amada amiga grávida gêmea, escreveu um texto super delicado e direto no ponto (que eu dei mil voltas pra falar aqui). Passem lá pra refletir também.

Devaneios de uma (quase) barriga II

Olha, eu juro que to tentando. Mas tá foda.

Filho meu, perdoa a mommy, só que é complexo ficar grávida. Se você for menina, vai ver só quando chegar a tua hora. Se for menino, vai ver só quando chegar a hora da tua mulher. Se você for um menino e decidir ser gay ou simplesmente não ter filhos, se deu bem (mas nem tanto porque eu vou fazer questão de te contar em detalhes).

Ver a barriga apontando foi uma coisa legal e conseguiu me animar por 37 minutos e 2 fotos. Foi mais ou menos esse tempo que fiquei feliz de ter pancinha. Depois briguei com Maridón. Dormi no outro quarto. Tive dor nas costas pela cama diferente. Dia seguinte foi um saco. Cheguei em casa e briguei com o Maridón de novo. Fiquei histérica. Gritava e chorava. Aí engasguei e comecei a vomitar. Nem me perguntem os motivos pra todo esse estresse, não me lembro. Maridón viu que o buraco era mais embaixo e veio pedir desculpas. Até agora deve estar se perguntando por que se desculpou, mas acho que valeu a pena. Pra ele.

Eu estava caindo de sono depois da crise freak descontrol. Deitei. E demorei três horas pra pegar no sono. Outras três horas depois, acordei pra fazer xixi. Duas mais depois, outro xixi e uma fome buraco negro. Duas horas depois, Maridón acorda e resolve se arrumar batendo com força todas as portas e pisando no chão fazendo barulho com os sapatos (implicante, eu?). Uma hora depois eu acordo assustada e com pressa pra ir trabalhar.

Trabalho. Mil coisas. Me estresso com o plano de saúde que resolve que não quer cobrir a ultrassonografia com translucência nucal. Posso saber o motivo disso? HEIN? Armo um barraco. A chefe do RH compra a minha briga e me ajuda (ela também tá grávida e as grávidas se entendem). Eu sinto tremiliques no corpo e identifico a crise freak descontrol voltando. Vou ao banheiro pra tentar me acalmar e: corrimento amarelo. MERDA. Da última vez que tive isso, fui obrigada a passar um final de semana de repouso. Eu sei que o nervoso me faz mal, mas é incontrolável. To prestes a matar alguém.

Resolvo a questão do ultra. Ok, pode ter sido um mal entendido com o convênio.

Vou pra casa almoçar e tentar relaxar. Assisto ao episódio de Friends que Rachel tem o neném. Choro, choro, choro.

Estou descompensada.
Estou louca.
Estou incontrolável.
Estou grávida.

(irônico é que eu achava que essas coisas de grávida eram inventadas/aumentadas pra dar toques de humor nos filmes ou que simplesmente eram lenda urbana, sabe? Mentirinha ou historinha pra fazer o momento ficar mais “especial”. Ha-ha. Faz-me rir, Carolina.)

Ok.
Vamos dar as mãos e repetir o mantra-mor da maternidade: vai passar, vai passar, vai passar.

Olha só quem apareceu!

A barriga! La panza! (aproveitem e peguem a lupa pra ver)


Agora, uma explicação: eu juro que tentei fazer fotos mais sérias, mais grávidas, mais plenas, sei lá. Botava a câmera no tripé, pensava na iluminação e blá blá blá whiskas sachê. Mas daí os resultados eram péssimos, eu saía com cara de louca (ah, mas tá muito normal nessa foto, Carolina!), não sei. Daí parei com a palhaçada, peguei a câmera no mãozão mermo e fiz uma careta. Pronto! Saiu a foto!

Isso é pra comemorar a linda data de hoje, em que eu completo 10 semanas, entrada na 11a., 3456o. episódio de vômito, 453a. sessão de mau humor e que faltam só mais duas semaninhas pro primeiro trimestre trevas acabar. 14 dias! Aeeeeeeeeeeeee!

Mais uminha de brinde, agora no estilo A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça:

Humpf

Tenho tantas coisas para fazer. E são tantas, parece que toda uma vida se desorganizou e precisa voltar a andar normalmente. Só que eu olho pra todas essas coisas e sinto um cansaço, um sono, uma preguiça. Não faço nada.

Já escrevi montes de parágrafos sobre como anda a minha gravidez, sobre o obstetra que eu ainda não consegui encontrar, sobre os sustos que sigo tendo, sobre os vômitos que continuo vomitando, sobre a barriguinha que um dia parece que cresceu, outro dia não. Mas apaguei tudo e achei chato e reclamão e ranzinza.

Aí fiquei pensando sobre isso e aliado ao meu mau humor de hoje, percebi uma coisa. Que eu achei que esse primeiro momento da gravidez seria mais GLAMOUR. Pode até ser pras outras mocinhas. Mas pra mim, não tem sido muito não. Só que eu fico sem graça de falar (e admitir) isso.

Eu imaginava que seria um poço de felicidade e confiança e beleza (praticamente a Miss Universo das Mommys, a Tieta recém-chegada na cidade, envolta num lenço colorido esvoaçante e poderoso). Que os enjôos eram uma lenda urbana “ah que bonitinha, ela tá enjoando!” (repita essa frase depois de vomitar 4 vezes no mesmo dia). Que o medo era fruto da ansiedade besta (mas não, parece um chiado, um piiiiiii interminável que toca o tempo todo dentro de você. Tem vezes que é ensurdecedor, tem outras que até dá pra fingir que não tá ali. Só que é constante; eu sei, você sabe.). Que eu ficaria LINDA grávida (e não espinhenta e com uma barriga esquisita e com os peitos doendo pacas). Que as oscilações de humor eram bobeiras inventadas por aí (aproveita pra se lembrar disso quando, na mesma frase, a pessoa diz AMAR morar em Buenos Aires e logo em seguida, começar a chorar dizendo que quer voltar pro Brasil). Conclusão é que imaginei várias coisas baseadas num conto dourado da vida da Barbie loira plastificada perfeita e nunca tinha pensado nas dificuldades.

Além de tudo, dá uma puta sensação de solidão, de única (e última) grávida do mundo, não compreendida por ninguém, prestes a ter o corpo, a mente e a vida alterados pra sempre.

Outro dia, saí do médico revoltada (papo pra outro post) e queria muito ligar pra alguém. Não importava se esse alguém tava no Brasil ou na Conchichina, eu precisava botar aquilo pra fora e foda-se a conta do telefone. Passei o olho na minha lista de contatos. E comecei a chorar, no meio da rua mesmo, falando em português e sozinha “ninguém vai me entendeeeeeeeeeer”. Se você, turista desavisado, tava andando pela Recoleta e viu uma doida semi-barriguda chorando ao olhar pra tela do celular, opa!, era eumerma.

Mas aí, respirei fundo, parei com a crise e liguei pra minha psicóloga (sábia decisão).

***

Morro de vergonha de postar essas coisas. Fico me sentindo A CHATA (ai de você, pessoa sem-noção, que concordar nos comentários que eu sou chata mermo). Principalmente porque eu quis tanto a gravidez e agora só sei reclamar. Malz aí, tá? Juro que assim que eu recuperar as minhas CNTPs (o que pode ser em cinco minutos ou só daqui a seis meses e meio), eu vou escrever um post bem bonito falando da imensa alegria de estar grávida (se eu escrever isso agora, sai em poucas palavras “eu acho super ótimo estar grávida porque em seis meses e meio eu terei um bebê”).

Morri

de rir.

Desculpem, hermanos, mas eu me diverti MUITO de ver vocês caindo de 4 no salsichão alemão.

***

Filho,
se ainda assim, você quiser continuar sendo argentino, só lamento, eu vou respeitar.

Nota rápida de uma grávida enjoada

Assistir a uma eliminação do Brasil na Copa em território argentino não é fácil. Assim como é costume brasileiro zoar os hermanos, eles também estão bem felizes e comemorando como se eles próprios tivessem ganho uma final de campeonato.

Meu mural do facebook tá uma praça de guerra e olha que eu nem fui trabalhar, de tão puta enjoada que estou.

Maaaas. Agora eu sou quase mãe. E como quase mãe, antes de qualquer outra coisa, acho que futebol é pra ser divertido e nada mais. Então, apesar de ter ficado braba com os amigos porteños me zoando sem dó, eu deixei rolar, mandei contar quantas Copas eles já ganharam, e amanhã estarei firme e forte torcendo por eles, mas também vou dar uma zoadinha caso percam.

***

Filho, você foi concebido em ano de Copa. Quando tiver 3 aninhos, a primeira Copa da sua vidinha será no país da sua mommy e do seu papy. Tenha certeza de que estaremos lá, te levarei pra conhecer o Maracanã, te farei ver a alegria que é ser brasileiro nessas horas. Mas, se você quiser ser argentino, eu vou te encher de porrada e mostrar quem manda nessa porra, eu vou respeitar.

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