Hoje é o dia de botar isso tudo pra fora.
Mas antes, alguns avisos:
1. O post é longo, caso não tenham paciência, tudo bem, a gente se vê num próximo post.
2. Gravidinhas: CUIDADO. O texto é cheio de problemas de uma gravidez que não deu certo. Caso você seja muito sugestionada, duvido que te fará bem. Pensa bem antes de seguir.
3. Vou falar de coisas nojentinhas, você que não tá acostumado com a tosqueira do mundo materno, não se assuste.
4. Todo o relato é totalmente pessoal. Se está acontecendo com você, antes de qualquer coisa, pergunte ao seu médico. Não me use como base pra avaliar nada, ok?
Então tá.
Quem me acompanha há mais tempo sabe que, com 6 semanas de gestação, eu tive um corrimentinho estranho. Meu médico já tinha me avisado que, durante o primeiro trimestre, todos os fluxos do meu corpo iriam aumentar: corrimentos, suor, xixi, saliva. Até aí, ok. Mas, era um líquido diferente, amarelinho e com tons de rosinha. Alguns médicos ainda defendem que esse pequeno sangramento pode ser resultado da fixação do saco gestacional no útero. Ok. Além disso, eu tinha coliquinhas, que os médicos também dizem que é normal do primeiro trimestre, que é apenas o útero crescendo. Mas, fiquei com a pulga atrás da orelha. E aí vocês já sabem: corri pro hospital e foi diagnosticado um
hematoma no saco gestacional.
Fiquei alguns dias em repouso, repeti o ultrassom e
vi o baby, coração batendo, tudo certo. Porém, o hematoma continuava. Meu médico na época estava afastado, de licença por um problema de saúde. Fiquei preocupada de não estar acompanhada por ninguém e procurei outra médica. Gostei dela, da vibe que ela tinha. Mas, algo ainda não me convencia.
Meu médico número 1 voltou da licença e eu decidi ficar indo nos dois, até decidir o que fazer. Nas consultas depois desse ultrassom, nenhum dos dois pediu pra repetir o exame pra checar a evolução do problema. NENHUM. Mesmo com hematoma e corrimentos freqüentes (tive pelo menos mais 3 vezes), eu ligava pros dois e as opiniões eram as mesmas: fica em repouso relativo, segue tomando progesterona e Buscopan pra cólica. Mas, eu já tinha voltado pra vida, tava trabalhando, fazendo minhas coisas em casa (nada pesado, nada de faxina, nada de pegar peso).
Como as opiniões eram parecidas, comecei a achar que a neurótica era eu, que não tinha motivo pra tanta preocupação. Nisso já estávamos na décima semana, a barriga começava a aparecer e eu achei que era hora de começar a curtir. Fiz
fotos da pança,
brinquei de enxoval e tudo mais que eu achava que tinha direito (e tinha, não me arrependo de nada). Mas, algo me freava. Não sei o que era e não sei se posso chamar de intuição. Mas eu nunca comprei nada pro baby. Nem roupa de grávida pra mim. Nem mexi em nada na minha casa. Tinha medo da barriga e achava vergonhoso quando as pessoas passavam a mão nela. Sentia até medo de conversar com o Maridón sobre as mudanças que estavam por vir, sobre a licença maternidade, sobre guardar dinheiro. Não chegamos a fazer nada disso, pra vocês terem noção.
Nessa época (ainda por volta das dez semanas), os sintomas da gravidez começaram a sumir. Os enjôos cessaram, o mau humor parou, os seios pararam de inchar ou doer (e isso eu não me perdôo por não perceber, foi meu primeiro sintoma de gravidez, eu deveria ter reparado nessa mudança tão brusca). Mas bem, achei que era porque o primeiro trimestre tava acabando, todo mundo diz que os sintomas dão um tempo, achei normal.
Tive nova consulta com os dois médicos e nada de falar do hematoma. Só o que eu ouvia era “é normal, todo mundo tem, o organismo absorve sozinho”. Os dois me pediram pra fazer o ultrassom habitual do primeiro trimestre, esse que também tem a translucência nucal.
Foram dias difíceis. Fiquei mega ansiosa e sem ter muito com quem desabafar. Na sala de espera pra fazer o ultra, eu me tremia inteira, não conseguia fixar um pensamento, me sacudia na cadeira. Fomos chamados e pronto, começou o exame. Gel gelado na barriga, Maridón com sorriso besta segurando a minha mão. Até que o médico fala “olha, não to conseguindo ver direito, vamos fazer um transvaginal”. Maridón pergunta pro médico se isso era normal e automaticamente eu penso “não, não é normal”. Mãe sabe, mãe sempre sabe.
No ultra transvaginal, recebemos a notícia que o feto não tinha batimentos cardíacos. O cordão umbilical tinha se ligado justamente onde o hematoma estava, daí o feto ficou sem alimentação e respiração. E
morreu. Eu, deitada na maca da sala de exames, era a calma em pessoa. Perguntei várias coisas pro médico, porque aquilo tinha acontecido, se foi alguma coisa que eu fiz errado etc. Estava plácida.
Mas, quando levantei... meu mundo caiu. Olhei pra cara do Pedro e vi aquele olhar profundo de decepção e tristeza. Toda aquela animação que ele tava na sala de espera, todo aquele discurso de “tudo vai dar certo” que ele incorporou (e eu também, de certa forma) deram lugar a um vazio bem grande e escuro. Acho que minha cabeça voltou pro lugar e eu percebi finalmente o que tinha acontecido. Chorei tanto. Mas tanto. Que acho que só parei no dia seguinte.
Bem, aí vocês já sabem: eu tive um aborto retido, com morte fetal provável nas 9 semanas. Descobri isso com 12. Fiquei muito preocupada de ter estado todo esse tempo com a gravidez inviável, sem que meu corpo tivesse percebido. Mas, como estava tomando progesterona desde as seis semanas (por causa do hematoma), a explicação é que a suplementação do hormônio é que não deixou que o corpo entendesse sozinho o que tinha acontecido. Uma vez que eu suspendesse a medicação, tudo ia seguir naturalmente.
O médico número 1, quando questionado por mim se não deveríamos fazer a curetagem, ficou todo melindrado. Falou que se eu quisesse, podia procurar outra opinião, que ele não ia fazer, que de acordo com a longa experiência dele, em 80% dos casos, o corpo faria o aborto natural. Meio que brigou comigo pela minha insegurança e repetiu diversas vezes que eu era livre pra procurar outra opinião e pedir que outro médico fizesse o procedimento. Me tratou como uma boba idiota e disse que abortos são normais e que mal íamos nos lembrar disso quando eu ficar grávida numa próxima vez. Mas que, de qualquer forma, ia me mandar fazer risco cirúrgico (pra já me preparar pruma possível curetagem) e me mandou fazer um ultrassom pra acompanhar tudo e uns exames de sangue. E me mandou pra casa, pra ficar uma semana em repouso.
Já a médica número 2, ficou sentida com o ocorrido, me abraçou e também falou que o aborto ia acontecer naturalmente. Me mandou voltar a trabalhar (oi?), que encarar a vida normalmente era a melhor coisa a se fazer. Mas doutora, e a progesterona? E se não acontecer naturalmente? Como voltar a trabalhar depois desse baque? Ah, tudo bem, vai ser como uma menstruação mais forte, com cólicas e tal. Volta pra sua vida e vamos marcar uma consulta pra daqui a dez dias. DEZ. Ela mandou uma pessoa com aborto retido e visivelmente abalada de volta pra casa, com retorno ao consultório em dez dias. Foda-se o risco de infecção, foda-se o psicológico, foda-se tudo.
TUDO ISSO É NORMAL, os dois abestalhados me disseram.
Olha, me chamem de LOUCA, mas NORMAL não é igual a COMUM. Sei que hematomas, abortos e demais coisas erradas são comuns, freqüentes. Mas NORMAL é uma gravidez ir até o final dos 9 meses e NORMAL é que os médicos se preocupem com o TODO, que orientem tanto o físico como o psicológico de seus pacientes, principalmente num caso grave como esse. Aborto é GRAVE, tá?
Mas bem. Fui pra casa, peguei o que me interessou de cada médico e segui em frente. Fiz o repouso recomendado pelo médico 1, fiz os exames e esperei as dores da “menstruação forte” que a médica 2 tinha previsto. O aborto demorou 3 dias pra começar e veio acompanhando de dores freqüentes e suportáveis. Até que, na madrugada da segunda-feira passada, as dores ficaram incrivelmente bizarras. Eu tinha contrações bem doloridas, que vinham a cada 2 minutos e duravam uns 40 segundos cada uma. Eu sei que eram contrações e não cólicas porque era uma DOR, mas uma DOR que não tem explicação. Parecia que eu ia morrer. Eu entrava em transe a cada dois minutos. Urrava, revirava os olhos, dobrava o corpo. Depois passava e parecia que nada tinha acontecido, dava até pra cochilar. O médico 1 já tinha avisado que não poderia atender o celular, que nem era pra eu ligar. Então recorremos à medica 2, por várias vezes. Ela mandou tomar Buscopan (que não fazia nem cosquinha), depois mandou eu ir pro vaso sanitário fazer força, porque se tava doendo tanto era porque já estava no final. Eu fiquei mais de cinco horas nesse processo. CINCO horas com contração a cada dois minutos e ainda por cima tentando fazer força, pensem bem.
Comecei a ter hemorragia bem forte, ficar fraca e ter vontade de desmaiar. Tava cansada e com medo. Mesmo contra a orientação da médica 2, fomos pro hospital. Me preparei pra curetagem e desencanei, eu só queria que aquele sofrimento acabasse.
Cheguei lá já quase sem consciência, tava no mundo paralelo da dor sem fim. Mal tirei a calcinha pra médica do plantão examinar, senti um volume grande descendo, corri pra maca (sabe lá deus como eu consegui CORRER nesse momento) e pronto, expeli os restos. Não vou entrar em detalhes sobre esses “restos”, mas digamos que foi uma das cenas mais bizarras que eu já vi na vida.
Depois disso,
fui internada e passei o dia na ocitocina, no antibiótico e no analgésico. Ainda sangrei muuuito, mas o ultrassom no final mostrou que meu corpo tinha expelido quase tudo, só tinha sobrado o endométrio, ainda bastante espesso. Mas que não ia precisar de curetagem ou mais tempo de internação. Ganhei mais dois dias de repouso e tinha que voltar pra revisão no hospital mesmo, no final desses dois dias. Que foi ontem.
Voltei e soubemos que o endométrio continua espesso, mas já afinando. O processo é relativamente lento, vai durar mais alguns dias, mas segundo a médica fofis do plantão, é normal. Ela me deu o celular dela, falou pra ligar e voltar lá caso tenha qualquer dúvida ou insegurança, me passou antibiótico pra evitar as tais infecções e um remedinho tipo ocitocina, pra ajudar meu útero a seguir eliminando o endométrio. De qualquer forma, tenho retorno lá em 10 dias (agora sim tem sentido esperar dez dias) e vamos ver como evoluiu tudo.
***
Bem, parabéns pra você que chegou até aqui. Se foi complicado ler, imagina viver isso tudo. Tenho ainda mil opiniões sobre o atendimento médico DEFICIENTE que recebi dos meus dois GOs, aos quais pretendo nunca mais voltar. Mas, fica pra um próximo post.
De lição disso tudo, por agora, acho que fica a que médico NÃO É DEUS. Eu acho que confiei demais neles e “de menos” em mim. A relação que temos com eles precisa ser de troca e não de mestre e aprendiz. É necessário perguntar SIM, encher o saco SIM, até que você fique totalmente segura de que tá tudo coberto, tanto o físico quanto o psicológico. Não acho que deve haver espaço pra dúvida. Não gostou do médico? Vai em outro.
Não acho que meus médicos tenham sido responsáveis pela morte do meu filho, de jeito nenhum. A gravidez não era viável e pronto. O que acho que é que o meu sofrimento poderia ter sido diminuído, caso tivéssemos diagnosticado a morte fetal antes.
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Bom, considero encerrado esse papo chato de detalhes do aborto, ok? Se alguém tiver alguma dúvida, me manda e-mail que eu juro que respondo, terei o maior prazer em ajudar.
;)