Amanhã completam 5 anos da morte da minha mãe. No dia seguinte, serão 5 anos da morte da minha irmã.

É lógico que uma data dessas me faz parar e pensar. Só que, recentemente, alguma coisa mudou. Já não consigo mais ver esse acontecimento como terrível, injusto, horroroso. Simplesmente fico com saudades e penso no quanto seria bom tê-las aqui comigo de novo. O que automaticamente me faz olhar pro lado e me faz perceber o quanto é bom ter quem tenho agora. E aí dou valor pra estes. E a vida ganha novo sentido: a de saber reconhecer o amor quando ele está bem do meu ladinho.

Não que eu já não soubesse um pouco disso. Tanto que me lembrei de um capítulo da história da minha mãe sobre o qual eu já tinha escrito (e agradeço dez milhões de vezes a Deus porque eu resolvi escrever tanto nessa vida, tudo ficou guardado pra eu visitar sempre que quiser).

E bem, quero compartilhar com vocês esse momento. São duas partes, publico a primeira hoje e a segunda amanhã, combinado?

Rio, 22 de outubro de 2004, publicado originalmente aqui

“Quantas saudades!” – ela disse.
Isso foi logo que chegou em casa, lá pelas dez da manhã. Chorou um pouco, mas não era tempo de tristeza, então ela acabou foi sorrindo mesmo. 
E, sorrindo, mostrou a cicatriz na cabeça. Grande, a deixou com orelhinha de abano. Em uma orelha só, porque a outra continuava normal. Ela comentou que não pode mais passar por detectores de metal. Nem de banco, nem de aeroporto. Por ter um chip na cabeça, ela ganhou uma carteirinha especial.
A filha achou engraçado alguém ter uma carteirinha por causa de um chip. Mais engraçado ainda é alguém ter um chip na cabeça. Parece coisa de filme, né? Se ela colocar um imã – desses de geladeira mesmo – na nuca, ele gruda. Deu ainda mais vontade de rir. A filha ficou imaginando a mãe com lembretes imantados grudados na testa. Filha meio doida essa. Com tanta coisa pra se pensar, ela fica imaginando loucuras acerca de um aparelhinho. “Chip… será que a minha mãe virou um robô? Será que eu posso transferir arquivos do meu HD pra cabeça dela?”. Eu hein.
Mas logo o devaneio passou, a mãe começou a contar das expectativas, pra quando o tal chip for acionado. “Caraca, o chip ainda por cima vai ser acionado!! Será que são inúmeros e enormes computadores? …”. Então, tão logo o aparelhinho for ligado – o que deve acontecer no final do mês – ela vai voltar a ouvir.
Pára tudo! Não foi mencionado nesse pretensioso texto que ela era surda! Ela é surda! E agora tem um chip na cabeça para voltar a ouvir! Ai, que loucura. Contando assim ninguém acredita. Mas é verdade, eu juro. A surdez já tem quinze anos – idade da irmã mais nova. Ela ficou doente, entrou em coma e quando recobrou a lucidez, ficou surda. Logo depois, teve um filho. Peraí, a história está perdendo o rumo de novo. Voltemos às idades: hoje, ela tem 45 anos, fazendo contas simples, concluímos que a surdez veio aos 30. Puxa, quinze anos de silêncio. Silêncio forçado, que fez com que ela ficasse um pouco à margem, esquecida, ilhada. Sem música, sem a voz do marido, sem a voz da filha mais velha, nunca ouviu um sequer som emitido pela mais nova. Sentia falta do despertador, da televisão, do barulho da rua, das buzinas, da vida.
E indagando sobre isso tudo, a filha – completamente imersa em seus pensamentos enquanto a mãe contava detalhes nojentos da operação – pensou mais uma vez no chip. “E agora, uma porra dum chip vem mudar todo o rumo da prosa…o que eu vou dizer a ela? O que eu vou dizer quando ela puder ouvir a minha voz? O que vai ser da vida agora? Da minha vida?”.
Ficou o resto do dia pensando em chips e vidas e concluiu que “luz no fim do túnel” é pouco, o que se acendeu foi um puta dum holofote na existência dessas pessoas. 
Pessoas como eu.

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23 respostas em “7665 dias com ela

  1. ai que delícia de texto, carolzita! quero mais, publica a continuação hoje vaaaaaaai. lembra que grávida não pode passar vontade?
    obrigada por compartilhar esses momentos especiais de sua vida.
    e faz parte do amadurecimento e do efeito do tempo nos acostumarmos com certos sentimentos. essa é a mágica da vida!
    grande beijo!

  2. Carol, vc me tem me feito chorar tanto…e mal nos conhecemos. Já que cheguei por aqui há pouco tempo.

    Olha, fiquei muito feliz com a notícia da gravidez, viu? Permita-se viver essa felicidade.

    Bjos

  3. Oi Carol,
    Já tinha lido sobre a surdez da sua mãe tempos atrás, mas esse seu texto está mágico…
    Com certeza é maravilhoso ter tudo registrado para poder a qualquer momento relembrar!
    Volta logo com a segunda parte!!
    Beijinhos

  4. Amei o texto Carol!
    Que bom que tu escreve tanto e tão bem. A história dessas duas aí é muito linda pra ser esquecida.
    E o mais legal de tudo é que a história da tua mãe e da tua irmã nunca acabou, continuou contigo e vai continuar com tua filha (?!)

    Ansiosa pela próximo capítulo!!

    beijo!

  5. Oi Carol!!!!
    Fazia tempo que eu não passava por aqui e só agora soube da novidade! PARABÉNS pelo baby!!!!
    Tenho certeza de que sua mãe e sua irmã estão zelando por vc e esse pequenio ser…
    Ah! Belo texto, estou ansiosa para ler o resto amanhã!

  6. Carol, tenho acompanhado todas as tuas linhas. E re-acompanhei no post que ligava cada post a um momento das primeiras semanas da tua gravidez, pensando: nossa, ela já tinha contado tudo! O sol já tava dentro dela! E eu nem tinha percebido!

    E agora que você trouxe esse texto seu tão vivo, penso que importante deve estar sendo reviver tudo isso, pelos 5 anos sem sua mãe e sua irmã, e por ser algum tipo de reconciliação com sua história através das palavras, neste momento de gestar. Não que você tivesse brigado com ela, não é isso. É algo como agradecer, mesmo através da tristeza, ou da saudade, por cada coisa que aconteceu na sua vida e que te trouxe (ainda que por obscuros e duros caminhos) pra onde você está, com esse coraçãozinho batendo no ventre.

    E, então, o amor que hoje está do seu ladinho. E dentro. E se espalhando pelos cabos dos computadores, se esparramando virtualmente com as letras tecladas das palavras…

    Um beijo carinhoso pra vocês.

  7. Carol, que coisa fantastica seu blog… Vc escreve bem demais? comecei a te seguir essa semana, mas pelos posts fiquei admirada com sua historia, e muito feliz pelo positivo! ainda sou pre-tentante, mas to adorando! soh fiquei c uma curiosidade q nao achei nos posts: qtos anos vc tem?
    Desculpe a falta de acentos, toh escrevendo do cel.
    Bjin!

  8. Que lindo! Muito, muito lindo!
    Mal posso esperar amanhã para ler a segunda parte.

    Você vai ser uma mãe muito engraçada, uma dessas mães que os filhos adoram mostrar para os amiguinhos da escola e dizer: ela é meu herói!

    Um abraço!

  9. Ai ai, confesso que pela primeira vez me esqueci a data… reler este texto me bateu um ar nostálgico. Não das coisas que aconteceram há exatamente cinco anos atrás, mas daquele momento de vida que nos encontrávamos. Do momento de vida que nos encontrávamos quando vc escreveu este texto… Tem certas coisas que são boas de serem relidas, pq assim a gente trás um pouco do sentimento daquela época para o "agora".
    beijocas, ju

  10. E são essas coisas que ficam…as lembranças!
    Nem sei quantas vezes voltei no blog pra ler o relato do meu parto, sorte nossa ter tido a idéia de escrever.Pois, apesar de tudo, podemos relembrar e reviver momentos únicos que infelizmente o tempo leva.

  11. arrepiei. lindo texto, linda história. a dor ameniza mesmo, não te sinta culpada por isso, viu? ela permanece, mas se transforma, a minha já dói há 17 anos, mas também tenho muitas histórias para lembrar.
    beijos

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