Nos últimos dias, duas pessoas com quem encontrei me disseram coisas muito parecidas que me marcaram:

eu leio seu blog, então nem vou perguntar como você está, já sei que tá ótima!
e
se eu não soubesse que você passou por um aborto, eu nem desconfiaria, você está tão bem!

Eu poderia simplesmente pôr a culpa no blog, pensando que aqui é só um recorte da minha vida, logo as pessoas só enxergam uma parte. Uma foto, uma música, um texto engraçadinho e pronto. Mas, o segundo comentário foi feito por uma pessoa que nem sei se lê aqui, que está convivendo comigo há uns dias, que pensou no que ia dizer.

Quando essa segunda pessoa perguntou se estava incomodando de falar no aborto, eu fui enfática “nããããão, tudo beeeeeem”.

Na minha cabeça, parece até que fui enfática demais, como quem precisasse desesperadamente ficar bem de verdade. Mas, continuei falando no tema, quase que como quem fala da mudança no clima ou do último filme que viu na tevê.

***

A dor do aborto é solitária. Todo mundo esquece, muda de assunto, segue em frente. Eu também segui, não tinha como ficar parada onde estava.

Mas.

Outro dia, perguntei pro Maridón se ele ainda pensava no assunto, se ficava triste. Ele disse que sim, às vezes. Mas que não era um pensamento freqüente de seu dia. Algumas coisas isoladas o faziam lembrar, ele lembrava, entristecia, mudava de pensamento e pronto, acabou.

Pra mim, não é bem assim. É como uma ferida aberta. Ela dói sempre. Se eu prestar atenção, eu sofro o tempo todo. Eu não esqueço e algo me diz que eu nunca vou esquecer. Só que isso não quer dizer que eu esteja mal, eu simplesmente estou me acostumando a viver com uma parte de mim sempre doendo. Eu posso sorrir, posso falar besteiras, posso beber, posso me maquiar, posso sair e posso ser feliz. Só que sempre terei uma tristeza pra lembrar. Um amor que não foi. Um pedaço faltando. Pra sempre.

Juro que, quando tudo aconteceu, embora eu tenha feito o drama que me cabia, achei, no meu íntimo, que não era pra tanto. Afinal, todo mundo fala “ah, comigo foi assim e, olha só!, agora tenho 17 lindos e saudáveis filhos”. Eu pensava que eu que era a boba de sofrer tanto, já que 17 gravidezes ainda me esperariam. Só que hoje eu sei – e não digo pelas outras mães, digo por mim – que eu posso sim ter 17 filhos, mas sempre faltará esse 18º que eu tanto queria. E pronto.

Aceitar isso foi a chave pra minha felicidade atual. Saber que eu posso sentir dor e falar dela o quanto eu quiser simplesmente me deu espaço pra ser, pra estar completa, pra não me reduzir só a uma dor ou a uma alegria. Eu posso tudo.

E foi aí que descobri que o sentimento de querer ter um filho não me define. E, se não me define, significa que posso e quero e devo ter outros interesses. Afinal, eu gosto de outras assuntos. Fico feliz com outras coisas. E estou me permitindo tudo isso, até mesmo neste recorte que é o blog, que deveria ser apenas sobre maternidade.

Mas eu não sou só maternidade.

Não sei se dá pra entender o tamanho da liberdade que eu senti ao constatar isso. Fiquei feliz, gostei mais de mim, me aceitei melhor. Foi tão bom.

***

Escrever tudo isso num dia de feriado brasileiro me faz sentir como palestrar sem público. Gritar pra ninguém.

E talvez seja melhor assim. Que esse texto, essa enorme descoberta que eu fiz, permaneça como uma verdade só minha; a minha pérola escondida na feia ostra.

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23 respostas em “Sobre o que se vê

  1. Vc nao ta palestrando sozinha nao Carol! Eu to aqui e me emocionei com seu post, como sempre, sincero!
    Vc sempre fala com seu coração, sendo assunto sério ou fazendo piada, sempre entra seu coração no meio, e isso é q faz a diferença no seu blog e mesmo nao te conhecendo pessoalmente, tenho certeza q é o q faz a diferença na sua vida tb!
    Achei super sincero da sua parte escrever isso: "Afinal, todo mundo fala “ah, comigo foi assim e, olha só!, agora tenho 17 lindos e saudáveis filhos”. Eu pensava que eu que era a boba de sofrer tanto, já que 17 gravidezes ainda me esperariam. Só que hoje eu sei – e não digo pelas outras mães, digo por mim – que eu posso ter sim 17 filhos, mas sempre faltará esse 18º que eu tanto queria. E pronto."…é vdd Carol!
    Nossa, como eu gosto de ler o q vc escreve!
    Ja te disse q sou sua fã??? rs

    Bjos

  2. Ola,

    é perfeitamente normal isso tudo que estás a sentir. Começo a achar que todas nós que passamos por um episódio triste de perder um filho acabamos por nos sentir da mesma maneira. Muito alegres para fora, toda a gente acha que já ultrapassámos, mas bem lá no fundo nunca nos vamos esquecer desse bebe que não veio. E nossos maridos mesmo que pensem e ainda fiquem tristes, acho que não será metade da dor que nós sentimos (até porque há dias meu marido disse que tinha sim ficado muito triste, mas mais pelo facto de eu ter passado aquilo tudo). Mas tens toda a razão, esquecer não vamos, mas acabamos por aceitar, mesmo que esse bebe que não veio seja um pensamento constante nos nossos pensamentos (ainda há dias pensei que se minha gravidez tivesse ido até ao fim já teria meu bebe nos braços desde Agosto – e isso acontece-me com bastante frequência).

    Se algum dia quiseres conversar mais sobre o assunto podemos trocar e-mails ou podes-me adicionar no Messenger se quiseres.

    Bjs (e bola pra frente)*

  3. sozinha?
    esquece…
    hahahahaha
    só entro aqui pra acabar com essa sua ilusão de platéia vazia pra dizer que vai doer sempre. um dia vai passar a ser "só aquela dor" mas não tem como esquecer, mesmo que seja a parideira master do universo.
    e aproveito a sua visão de platéia vazia, agora com uma carolina sentada bem no centro, pra
    clap clap clap clap
    admirar a sua capacidade de recosntrução, de se permitir voltar a viver e entender o espaço que essa dor tem direito, ou não dentro de vc.
    tô confusa hoje.
    sorry.
    bjo bjo bjo

  4. Vc explicou direitinho. Ter sempre uma dor, uma ferida aberta, nao nos impede de sermos felizes. O mundo nao para pra gente se recuperar, entao vamos em frente… Por mais cruel que isso possa parecer!

    Beijo e adorei a florzinha no cabelo do post anterior!

  5. Carol, já querida, porque escreve com alma, porque se dá e não se entrega, porque também dói. Conheço dor assim, que está na moldura dos dias, na tonalidade que antecede as cores das coisas, num esquecimento leve que embrulha cada fazer.

    Hoje fiz um desabafo por estar escrevendo um blog e por ter mergulhado nessa vida in-tela. Ainda estranho. Poder ler textos como o seu ajuda a dar algum sentido pra isso tudo.

    Beijos
    Nati

  6. Sei exatamente o que vc ta sentindo! ontem mesmo me peguei pensando assim, estou em um momento onde as pessoas acham que me consolam ao dizer que "logo eu engravido de novo", pra mim não faz a menor diferença essa conversa, vai ta sempre faltando um serzinho que fez parte de mim por 8 meses e fará pra sempre!
    Mas o jeito é seguir em frente não é mesmo?É isso que eu to fazendo, e todo dia eu recomeço.
    Bjim

  7. I´m here darling, em pleno feriado brasileiro! Por isso que aquele nosso papo sobre escrever sobre outras coisas aqui, eu dei um super apoio, pq por mais que isso daqui seja um pedaço seu para falar de babies, se é um espaço seu, é para vc falar de tuso que quiser, de tudo que envolve a sua vida.

    As pessoas esquecem que brincar sobre o tema, sorrir demais, às vezes pode ser uma auto defesa, não que vc esteja 100% bem ou mal, mas é aquilo que vc falou, está tentando conviver com a marca que a experiência passou… e ter a consciência é o primeiro passo, para dar novos passos 😉

  8. Oi Carol!
    Aprender a conviver com uma situação não é esquecer.. E imagino que esse não seja um assunto que se esqueça assim..
    Bom é ver vcs seguindo em frente!

    Fiquei uns dias (semanas) sem entrar na blogosfera e acabei de ler seus últimos posts. Fiquei feliz que acabou a gastura de grávidas e afins hehe
    Senti saudades das suas visitinhas!

    Bjos! Fica bem!

  9. Carol flor
    tu escreves tão lindamente, com o coração mesmo. eu fico emocionada.
    entendo e concordo com cada linha. embora as pessoas mudem de assunto, esqueçam ou tentem nos consolar falando dos mil filhos que poderemos ter, as vezes parecem que acham que a gente devia estar com a cara inchada de chorar forever. e já que a gente se permite ser feliz apesar de, a gente é forte.
    afff odeio que me chamem de forte. quantas vezes já ouvi isso ao invés de ganhar um abraço daqueles que dá pra chorar no ombro. era o que eu precisava, mas como vesti a camiseta "sou mais forte que o tyson", agradeci, sorri amarelo e talvez até tenha feito uma auto piada bem infame.

    Mas é isso. Esse pedacinho vai faltar sempre e nem queremos esquecer, pois foi tão bom enquanto durou, tanto amor depositado nesse filho que nunca veremos… mas vamos sim ser muito felizes e teremos 17 filhos se quisermos, e vamos rir e beber e sair e gritar!
    tudo isso faz parte da gente.

    cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

    te cuida e seja feliz sim!

  10. Vc tá muito certa Carol. E acho que falar sobre a dor ameniza sim, pelo menos te dá espaço pra ser verdadeira e pra ser vc mesma. O que admiro e acho que é a chave do seu sucesso é que vc se "permitiu" vivenciar cada minuto desta dor maldita. Porque é maldita. Eu sei. E acho que quando vc vivencia, fala, chora e sofre e se mostra pessoa de verdade, vc ultrapassa barreiras e jajá retoma sua vida. Sim é verdade, vc NUNCA vai se esquecer deste "anjinho" que se foi, NEVER. Mas a dor vira uma marca, uma cicatriz, que não vai mais doer, talvez só em dias de chuva…mas que vc sempre vai olhar pra ela e saber exatamente o que aconteceu. Mas a mágica da vida é justamente a possibilidade que a vida nos dá de ter depois "outros" 17 filhos que vc vai amar tanto, que isso vai sendo levado com o vento…. Eu não sofri meu momento aborto, sempre tratorei e passei por cima e isso foi bem ruim pra mim, assim não me resolvi direito… ficou aquela coisa meio intocável… mas super te entendo e acho que vc tá no caminho certo. Um super beijo da torcida do "fundão" rs

  11. Lindo post, Carol. É isso mesmo. Não dá pra esquecer esse bebezinho, não seria justo. Claro que você vai experimentar uma grande cura quando tiver seus filhos, e vai ser feliz pacas. Mas a memória desse anjinho é sagrada. Eu não esqueceria.

  12. Lindo post, Carol. É isso mesmo. Não dá pra esquecer esse bebezinho, não seria justo. Claro que você vai experimentar uma grande cura quando tiver seus filhos, e vai ser feliz pacas. Mas a memória desse anjinho é sagrada. Eu não esqueceria.

  13. Carol,
    Minha mae perdeu um baby depois da minha irma e antes de mim, ela teve no total, 4 filhos, mais sempreeee fala, lembra e se emociona ao falar daquele filho, que ela nem sabia que estava gravida quando perdeu, mais sente falta.
    Nada vai apagar isso de vc. Vai fazer parte da sua historia. Acredito sim, que um dia va doer menos, mais vc nunca vai deixar de sentir.
    E vc esta certissima! As pessoas constumam dizer que nunca me veem triste, mais eu sou assim, posso estar me acabando por dentro, mais tento ser sempre alegre, rindo, zuando…
    O mundo nao para, temos que aprender a viver com as nossas dores, frustrações etc
    Gosto mtoooo de vc, vc sabe.
    Quero te ver bem!
    Bjokas

  14. Carol…perdi um bebe a exatos 1 ano e 4 meses…sim…é um buraco…uma ferida aberta que fica no coração…mas como vc mesma disse…a gente se acostuma com esse lado triste de nós…

    E sempre…sempre…esssa ferida ficará aberta em nós…pois é um pedaço de mim que se foi!!

    Bjs

  15. também levo a minha ostrinha comigo.
    cada um tem o seu modo de encarar a dor: uns falando nela, outros deixando que ela sussurre ao pé do ouvido.
    não existe fórmula de superação.
    até porque superação é coisa efêmera: tem horas que a gente acha que superou, pra logo em seguida levar uma rasteira feia e sentir que talvez nunca vá superar.
    enquanto isso a gente vai tocando o barco.
    te mando um montão de abraço apertado, viu?
    e volto sempre.
    (vc falando de maternidade ou não)
    beijo

  16. Claro Carol…

    Ninguém aqui se define exatamente e apenas pelo que escreve…não só pelo que escreve e isso nos liberta de sermos mais que isso e não só isso.
    Afinal o que seria de mim se apenas me apegasse ao fato de não conseguir engravidar???Lógico que eu penso nisso 1.368.325 vezes ao dia nesse assunto…mas ele é só uma parte de mim…Penso tb no meu trabalho( que pouco comento e gosto mt)penso nas coisinhas da minha casa, penso em ganhar na MEGA!rsrsrs..enfim…
    Não posso passar a vida toda triste pq ainda não conseguí engravidar..mas seguir outras linhas de raciocínio me deixa livre …
    Sua palestra foi MARA!!!!

    Récorde de público!!!rsrsrsr

    BJS!

  17. Ai, Carol…
    Hoje estou bem deprimida e esse post veio bem a calhar.
    Sou mãe de um lindo casal, mas que poderia ser um trio!
    A ferida estará sempre aberta e o pedaço sempre faltando…independente de quatas gravidezes vierem depois. Outubro seria o mês de nascimento do meu terceiro…e, no entanto estou aqui, vivendo minha dor solitária.

  18. Carol, o que mais me impressiona em você essa sua capacidade de continuar. Bem ou mal, eu não sei, nem posso avaliar, nem tenho bagagem pra julgar, mas você continua. E continuar e tão bonito que eu peço a Deus que te mantenha assim! Beijão querida!

  19. Oi, Carol
    Vou contar minha história…
    Quando o meu filho mais novo, o Gui, hoje com 4 anos, tinha 1 ano e pouco, decidi engravidar porque queria que eles tivessem 2 anos de diferença, pra serem bem unidos (o que não é garantia de nada, na verdade) e que fizessem aniversário próximos (porque dar duas festas por ano não entra na minha cabeça nem na minha conta bancária). Felicíssima, fui fazer a ultra de 12 semanas e o coraçãozinho não batia mais. Fiquei muito mal. Quase pensei em desistir de ter outro filho e um ano depois tentei de novo. A Duda está hoje com 1 ano e 3 meses. Ela nasceu com um problema no coração grave. Passou os primeiros 10 meses de vida com muita dificuldade de engordar e esperando a melhor data pra fazer a cirurgia corretiva. Encurtando a história, minha filha operou, teve uma recuperação super fantástica, se comparada a tantos outros casos que já conheci, e hoje está ótima.
    Mas não dá pra esquecer aquele aborto. Outro dia, conversando com um amigo que é espírita, ele falava um pouco de aborto espontâneo para o espiritismo. Pra eles, o espírito desistiu de encarnar, por algum motivo. Aí eu coloquei na minha cabeça que o espírito daquele aborto era a própria Duda. E que ela tinha resolvido se "preparar" um pouco mais antes de reencarnar porque sabia que o que ela ia passar não ia ser pouco, não ia ser fácil. E realmente não foi. Pra nenhum de nós. Mas passou. E desde então, tenho encarado esse aborto de uma forma totalmente diferente. Foi um tempo que a minha filha precisou.

    Bjs.

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